“Só posso notar que o passado é bonito porque nunca se percebe uma emoção no momento. Ele se expande mais tarde e, portanto, não temos emoções completas sobre o presente, apenas sobre o passado.”(Virginia Woolf)
Imagine um lugar com praias de águas azuis tão sensacionais quanto as da Croácia, montanhas imponentes, palácios tão elegantes como os de Veneza e cidades tão antigas quanto as gregas…e o melhor, em meio ao delicioso clima mediterrâneo…





Montenegro fica a apenas 92 km de Dubrovnik e muitos brasileiros fazem um bate e volta em Budva. Mas quando fomos à Croácia não tínhamos tempo suficiente, pois estávamos fazendo um mochilão também pela Polônia, Eslováquia, Hungria, Eslovênia e República Tcheca. Dessa vez, como já estávamos no norte da Albânia, não quisemos deixar passar a oportunidade e fomos para lá de carro com o Sr. Veri, o motorista com quem acertamos a viagem depois do perrengue com a Old Time Travel em Shkodër.







Stari Grad
A Cidade Velha de Budva (Stari Grad), é do século V a.C., e ao longo do tempo viu um desfile colorido de moradores, incluindo ilírios, romanos, bizantinos, venezianos e otomanos. O centro histórico é rodeado por muralhas e o que vemos hoje é do período medieval, quando ela era governada pela República de Veneza, que dominou também a Croácia e uma parte da Albânia, como vimos em Butrint e Corfu na Grécia.





No Cars Go
O melhor programa ali é justamente se perder pelo labirinto de ruelas e ir descobrindo aos poucos cada detalhe, cada cantinho, cada edifício e cada piazzeta. Como todo o centro velho é fechado para carros, o único tráfego é o de turistas mesmo. Uma coisa muito legal é que em todo canto há uma placa explicando o que aquele ponto significa e de que época é. Paredes desgastadas, vistas de tirar o fôlego e riquezas culturais… Achamos isso sensacional.




Ficar fora da Stari Grad? Jamais!
Aliás, mesmo não fazendo parte da União Europeia, a moeda é o euro, o que deixa o país bem caro para a gente. Entretanto, se a pessoa vai pra uma cidade que tem 2.500 anos, de frente pro mar Adriático, com um centro velho fortificado e todo em pedra, vai se hospedar fora dos muros? Aí eu pensei: nuuunca! Vendo o almoço pra comprar a janta mas vou ficar aqui dentro!!! E não arredo o pé!

Velja Vrata
Logo ao chegar, ficamos encantados com a beleza do lugar. Descemos na entrada da cidade velha, que fica grudada no antigo porto. Atravessamos o Velja Vrata (Portão Principal) e nos embrenhamos pelas ruazinhas e fomos puxando nossas malinhas em busca do Sailor´s House, nosso apartamento na Vuka Karadzica 25, reservado com antecedência pelo Booking.com.






Sailor´s House
De cara já gostei. O prédio fica num beco estreitinho (como quase todos na cidade velha). Bonitinho, agradável… Mas o que me ganhou mesmo foi dar de cara com o meu quadro favorito do Museu Nacional de Belgrado pendurado na parede do quarto: “A Arrumação da Noiva”, de Paja Jovanović (1885-1888). O quadro retrata um casamento da região de Montenegro. Quando o vi, ainda em 2019, me apaixonei por ele. Tirei mil fotos do mesmo quadro… afinal agora tinha uma réplica no quarto… só pra mim! (Pelo menos até ir embora…).

Nosso anfitrião, o Nenad, era muito legal e nos recebeu muito bem. Ele e sua esposa, Branka, são professores no colégio de Budva. Conversamos bastante, ele nos explicou muito sobre a cidade, nos deixou seus contatos pessoais e depois nos deixou à vontade para curtir. A localização não podia ser melhor! Tinha uma farmácia do outro lado da rua e uma ATM bem pertinho na rua Njegoševa. A única coisa chata foi o barulho, pois ao lado havia um bar que fervia à noite. Entretanto, esse é o preço de se ficar na Cidade Velha, pois qualquer cantinho vira boteco. Como não fomos em pleno verão, até que o fervo não ia até muito tarde. Nos fins de semana a vida noturna, como era de se esperar, é ainda mais agitada.








Ficamos duas noites e pagamos €86,40 (o que deu 425 reais na época). Ah, é importante lembrar que Budva, assim como várias cidades históricas na Europa cobra uma taxa municipal de turismo de €1,00 por pessoa, por dia. Essa taxa a gente paga em dinheiro junto com a hospedagem.
Trg Pjesnika (Praça dos Poetas)
Não resistimos a uma ruína…Tem buraco no chão, coluna, pedra, cacos coloridos? Lá vamos nós! Cultura não se compra, se vive! Por isso valeu muito a pena gastar uns cobres a mais e ficar pertinho de lugares mágicos como esse! Como o nome sugere, os amantes da arte, da música e da literatura se reuniam, e se reúnem até hoje, nessa praça para eventos e manifestações culturais. O palco não poderia ser mais lindo!





Trg Nikola Durkovic
Na antiguidade o sal era um bem muito precioso, utilizado para preservar a comida (como não havia refrigeração), sendo usado até mesmo como moeda para o pagamento dos soldados romanos. Daí o termo “salário”. A Trg Nikola Durkovic é também conhecida como Praça do Sal e costumava ser um local para o comércio de mercadorias.



Pjaceta kod kuce Cekrdekovica
Outra linda praça na Stari Grad é a Piazzetta da Casa Cekrdekovic. Ela é do século I depois de Cristo e no centro há um pequeno altar romano, um dos vestígios da antiga “Villa Urbana” (séculos I-II).





Piloni i Antičke
Os Pilões são antigos portões de pedra pelos quais se entrava no lendário Buthoe, um antigo assentamento greco-ilírio. Os maciços blocos de pedra são as primeiras muralhas de da cidade e datam dos séculos VII – VI a.C. de acordo com registros de Sófocles (famoso dramaturgo grego, autor de Antígona e Édipo Rei). Encontramos um deles dentro de uma loja de roupas!


Ranohrišćanska Bazilika
A basílica cristã primitiva é um dos edifícios sacros mais antigos da Cidade Velha. A enorme construção, dos séculos V e VI depois de Cristo, ainda guarda fragmentos de um piso em mosaico, o que mostra que Budva era um importante centro cultural, religioso e econômico no sul do Adriático. Pode-se visitar gratuitamente e andar por dentro das ruínas, que fazem parte do museu da cidade.




Nekropola
A antiga necrópole de Budva tem origem no século V a.C, no período ilírio-grego, e continuou a ser usada até ao início da Idade Média, ou seja, durante mais de mil anos. Os túmulos mais recentes são do séc. I depois de Cristo. Do período romano, além dos muros, há no centro uma lápide com uma inscrição, decorada com coroas de folhas e flores sustentadas por cabeças de carneiro. A necrólope foi descoberta em 1938 durante as escavações das fundações do Hotel Avala. Foram encontradas milhares de peças e artefatos e cerca de 2.500 fazem parte da coleção arqueológica do Museu de Budva.


Svetog Ivana e Igreja da Santíssima Trindade
Budva tem várias belas igrejas, cada uma com história e arquitetura únicas. A mais famosa é a Catedral de São João (Svetog Ivana), do século VII, uma das mais antigas de Montenegro. A Igreja da Santíssima Trindade é outro exemplo impressionante de arquitetura medieval e nos dá um vislumbre da história religiosa do país.






Termas Romanas
Em frente à igreja de São João (que se acredita ter sido construída no século VII), foram encontrados banhos romanos (chamados termae), abaixo do nível da rua. Eram banhos públicos com banheiras, hipocausto e fornalha, construídos entre os séculos I-II d.C.



Citadela
A Cidadela de Budva é uma obra impressionante da arquitetura medieval. Uma fortaleza composta por várias camadas de muralhas, portões e torres, cada uma construída por uma civilização diferente e as paredes de pedra chegam a até 2 metros de espessura em alguns lugares. A torre mais famosa é a que fica no ponto mais alto e data do século XVI. Entrando na Stari Grad pelo Portão Principal caminhamos direto até o final da rua e chegamos a ela.











A Citadela foi palco de inúmeras batalhas e conflitos, e além de seu propósito militar, também desempenhou um papel importante na vida cultural e artística da região. Ao longo do caminho, passamos por antigos edifícios de pedra, lojas bacanas e becos pitorescos. E ao chegar lá em cima fomos recompensados com a vista deslumbrante do Mar Adriático.
Museu e Biblioteca
No topo das muralhas da Citadela também ficam um Museu e a Biblioteca de Budva, que abrigam uma coleção de artefatos e exposições que traçam a história da cidade desde os tempos antigos até os dias atuais. A entrada é paga, mas achamos que valia a pena dar uma olhada.




Old Town Beach
Perto do centro histórico de Budva há duas praias, a Old Town e Mogren Beach. A Old Town fica praticamente grudada às muralhas da fortaleza. É um destino popular para turistas que querem aproveitar o sol e as águas cristalinas do Adriático. Ela é cercada por penhascos rochosos e tem vistas deslumbrantes da fortaleza e do mar.



Praia de Mogren
A Mogren Beach fica na encosta rochosa e é dividida em duas. No caminho para Mogren a gente vai circulando as falésias e encontra um dos cartões-postais da cidade, a estátua da “Bailarina”. A praia tem mais espaço que a Old Town, principalmente pra quem segue até Mogren 2.












Pizza salva vidas!
O euro a mais de 5 pratas também não ajuda muito. Então a nossa saída é sempre alternar os restaurantes com a famosa e caprichada fatia de pizza dos quiosques da rua! Grandes e gostosas e por apenas 2,50. Na Stari Grad a Pizza Lugo é uma ótima pedida. Ela fica na rua Vrzdak, em frente à Konoba (Taverna) Galeb. A gente adorou!




O Porto
O Porto é por onde muita gente chega à cidade e além dos barcos menores, lanchas luxuosas podem ser vistas atracadas por lá. Os restaurantes logo em frente costumam ser bem caros, como é de se esperar, mas passear por ali e admirar as embarcações já é uma atração em si.




Wrap House
Outro lugar legal pra comer sem gastar um rim é a Wrap House. Ela serve lanches gostosos e grandes – os famosos wraps – com muitas variedades de recheio. Tem também sanduíches tradicionais. Fica no Promenade, a poucos metros do Main Gate (fora dos muros).




Supermercado Voli
Como ficamos num apartamento com cozinha, compramos coisas para o café da manhã no Voli e isso também foi uma economia. O mercado fica pertinho do Main Gate (fora dos muros). Tem de tudo.


Comunicação
A cidade é super turística e bastante movimentada, embora não tão conhecida dos brasileiros. Quem frequenta mesmo a área são os russos e os sérvios que vão para lá aos bandos no verão. A língua oficial é o montenegrino, uma variante do sérvo-croata. Assim como as demais línguas eslavas, é muito diferente para nós, brasileiros.




A palavra “praça”, por exemplo, são apenas 3 consoantes: TGR! (Maluco, não é?) O bom é que usa-se o alfabeto latino (e não o cirílico). Outra coisa bacana é que devido à proximidade com Veneza há muita influência do latim. Assim, menus em italiano são comuns e também dá pra gente se virar bem com o inglês, embora muitos funcionários do comércio e mesmo taxistas não falem a língua.
Evite pegar taxi!
Na hora de ir embora, um calor danado, sol de rachar… Resolvemos pegar um taxi. Pagamos 10 euros da Stari Grad pra rodoviária de Budva (o que seria uma caminhada de 15 min). Bem carinho se comparado aos 8 euros (para os 2!) pra ir de ônibus até Kotor… Enfim, tudo pra não puxar a malinha pela rua debaixo de sol quente… Em lugares turísticos os taxistas adoram tirar vantagem dos turistas, então a dica é evitar sempre que der.

E depois de dois dias ensolarados e cheios de descobertas deixamos Budva felizes da vida em direção a outra beleza montenegrina: Kotor!
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