Roteiro em Éfeso: descubra as Ruínas

Não resistimos a uma ruína… Tem buraco no chão, resto de muro, coluna, pedra, cacos coloridos? Lá vamos nós! Cultura não se compra, se vive! Por isso, fizemos questão de incluir Éfeso em nossa viagem pela Turquia.

Como chegar e quanto custa?

Como nos hospedamos em Selçuk, a apenas 2 km das ruínas, fomos de carro com o Sr. Hamdullah, o dono do Boomerang Guesthouse, o nosso hostel. Chegamos cedo para entrar antes dos ônibus de excursão e fazer o circuito tranquilos. Mas há também passeios de um dia que saem de Istambul, Izmir e Kuşadası  para lá.

A visita dura cerca de 4 horas e o ticket para o Complexo Arqueológico custa 40 euros por pessoa para estrangeiros (1620 liras turcas). Salgadinho, mas vale cada centavo. Afinal, trata-se de um tesouro da humanidade que precisa ser preservado. Pagamos satisfeitos, agradecidos pelo privilégio de estar ali, aprendendo um pouco mais sobre a fascinante vida na antiguidade clássica.

Cidade Helenística

Diz a lenda que Éfeso foi fundada pelo príncipe de Atenas, Androclos, após receber uma profecia do Oráculo de Delfos. Fundada de fato pelos gregos há 3 mil anos, ela tornou-se uma das principais cidades do mundo antigo. Até o imperador Alexandre o Grande, da Macedônia, a visitou em 334 antes de Cristo.

No ano 129 a.C. o Rei de Pérgamo, Attalus III, morreu e deixou todo o reino, inclusive Éfeso, para Roma. A cidade então cresceu e prosperou tornando-se a capital da província da Ásia Menor e uma das maiores do Império. Um centro urbano inspirado nas cidades-estado gregas, ela tinha uma arquitetura planejada com ágoras, templos, fontes, termas, amplas ruas e edifícios públicos como palácios, bibliotecas e teatros.

Embora fossem governadas por reis absolutistas, muitas cidades helenísticas tinham autonomia, com suas próprias leis e moedas e Éfeso era uma delas. Um importante centro comercial, ela enriqueceu com a grande circulação de mercadorias que chegavam por seu porto e era também um centro de intensa produção cultural. A Biblioteca de Celso é a 3ª maior do mundo antigo e atraía estudiosos e escritores de todo o império. Foi também o que nos atraiu até lá!

Como capital da província, Éfeso foi a cidade mais populosa da Ásia Menor, com mais de 200.000 habitantes. Era uma comunidade cosmopolita que incluía gregos, macedônios e originários, povos que se misturaram ao logo do tempo e criaram uma cultura híbrida. A elite governante vivia no centro da cidade, enquanto os demais cidadãos moravam nos arredores.

O Grande Segredo

Aprendemos, ao longo de mais de 15 anos viajando, que visitar uma ruína é um exercício de imaginação. O que você vai ver é quase sempre uma planta baixa de onde antes havia um templo ou edifício. Colunas e restos de paredes estarão nus, despojados de adornos. Mas eles estiveram ali. Pessoas viviam ali. Perambulavam pelas ruas, comiam, bebiam, conversavam, compravam, vendiam… Imaginar esse mundo perdido e se deixar levar é o grande segredo e também a grande magia.

O Circuito das Ruínas

Começamos pela parte de cima, ao contrário da maioria dos visitantes que iam a Éfeso na antiguidade. Como o mar chegava até muito próximo dali, comerciantes e mercadorias desembarcavam no porto e iam subindo para a cidade alta. O circuito é fácil de seguir e há várias placas explicativas em turco, alemão e inglês.

Fonte de Laecanius Bassus

As primeiras ruínas que vimos foram as da cisterna. Gaius Laecanius Bassus foi governador de Éfeso em 80/81 depois de Cristo e ordenou sua construção na esquina da Avenida Domiciana. Também chamada de Hydrekdocheion (Palácio da Água), a fonte era um reservatório retangular de 105m2 com uma fachada de dois andares decorada com estátuas de divindades e criaturas do mar, tritões e musas. Vimos alguns de seus itens decorativos no Museu Arqueológico no dia anterior.

Ágora do Estado

Do lado oposto do Hydrekdocheion vimos a Ágora, que era o nome que se dava às praças públicas na Grécia Antiga. Lá os gregos discutiam assuntos ligados à vida da pólis (cidade). Nas assembleias os cidadãos podiam decidir sobre justiça, obras públicas, leis, cultura, etc., através do voto direto. Por isso a Ágora era considerada um símbolo da democracia.

Banhos Varius

Próximo ao Hydrekdocheion ficavam os banhos. Também chamado de Termas de Escolástica, o complexo foi construído por volta do final do século I ou início do II d.C. por Públio Quintílio Valente Vário. Mais tarde, no século IV, foi renovado por uma rica cristã chamada Escolástica (há uma estátua dela, sem cabeça, ali).

As termas serviam para higiene, mas principalmente como local de convívio social, onde os cidadãos se encontravam para relaxar, conversar e fazer exercícios. Era considerado o 3º mais importante da vida romana, depois do lar e do trabalho.

O complexo fica logo acima da Ágora do Estado e foi construído próximo da entrada superior da cidade para que os viajantes pudessem se lavar antes de entrar na área administrativa. Os homens que participavam da gestão da cidade passavam horas em reuniões na Ágora ou nas termas, que tinham salas com água fria (frigidário), morna (tepidário) e quente (caldário).

Ao lado dos banhos também havia latrinas públicas, construídas no século I. Eram 3 fileiras de “vasos sanitários” em um salão coberto, com uma fonte no meio. Cada latrina era um buraco em um banco de mármore – 48 no total. Nas laterais ficavam gravetos com esponjas na ponta que eram usadas para a “higiene”. Essas esponjas eram mantidas em vinagre. A pessoa pegava o graveto e lavava com água fresca, que escorria pelas sarjetas em frente aos vasos, antes de usá-lo.

Para os romanos, ir ao banheiro nem sempre era um assunto privado. Todo mundo ia ao mesmo tempo. Toga levantada, calças abaixadas, conversando o tempo todo. Eles compartilhavam histórias, piadas… e mesmo depois de “fazer o serviço” era comum ficarem por lá batendo papo. Imagina só!

Basílica Stoa

No complexo administrativo havia também uma basílica, que servia como Tribunal, além do Templo de Isis, o que indica a grande influência cultural e comercial do Egito, pois Éfeso tinha fortes laços com a também portuária Alexandria.

A Stoa (colunata) de três corredores foi doada por C. Sextilius Pollio e construída no ano 11 d.C. Ela tinha uma fachada com 67 colunas jônicas e, num pedestal do lado direito, estátuas do Imperador Augusto (27 a.C. – 14 d.C.) e sua esposa, Lívia, hoje exibidas no Museu de Éfeso em Selçuk (nós as vimos lá).

Odeon e Buleuterium

A estrutura administrativa de Éfeso tinha dois Conselhos: o Buleuterium (Senado = Boule), que tinha poucos membros e realizava apenas algumas reuniões, uma vez por ano, e a Câmara Popular (Demos).

O Odeon, em forma de anfiteatro, fica na encosta do Monte Pion, perto dos Banhos Varius. Construído no século I d.C., ele servia como local de encontro para os membros do Senado e também sala de concertos onde o aulos (flauta), a cítara e a lira eram os instrumentos principais. Os gregos acreditavam que a música era uma invenção divina, que trazia relaxamento ao espírito humano e, inclusive, curava doenças. E não estavam errados!

O Prytaneion

Os prytane (ou curetes) eram altos servos ligados ao culto e à administração da cidade e eram escolhidos dentre as melhores famílias de Éfeso. No Prytaneion (Prefeitura) ficava o fogo perpétuo, uma chama que queimava noite e dia em homenagem a Héstia, deusa da Família. Os prytanes mantinham o fogo do palácio aceso e gerenciavam as instalações e as cerimônias, incluindo rituais e oferendas. (Quem diria que, passados dois mil anos, estaríamos ainda misturando família, religião e administração pública?)

O Prytaneion, que era também o palácio residencial e escritório do governador de Éfeso, tinha um pátio de 26 x 22m cercado por colunas. O salão principal era usado para banquetes e ali havia estátuas da deusa Artemis Efésia (que vimos em Selçuk).

O Peristilo de Ródio

Do lado esquerdo do Buleuterion, o Peristilo era uma galeria com colunas que cercava, em três dos lados, um pátio de 33 x 28m. Um altar e dois templos menores ficavam num pódio e havia aposentos sagrados, provavelmente construídos no reinado de Augusto e dedicados a César e à deusa Artemis, além do próprio Augusto.

Cultos Imperiais

Os cultos imperiais foram estabelecidos durante o período romano para garantir a unidade do Império. Os templos eram supervisionados por sacerdotes e, em nome do imperador, jogos semi-religiosos aconteciam a cada 4 anos. Eram competições em que gladiadores lutavam entre si, e os que lutavam com animais selvagens eram chamados “bestiários”. Templos dedicados aos imperadores também foram construídos em Éfeso e a permissão para erguer um era considerada uma grande honra e privilégio, o que fazia com que as cidades competissem por isso.

Marco Antônio e Cleópatra

Marco Antônio, levou Cleópatra para Éfeso em 41 a.C. e o casal fez dela sua capital durante as guerras civis romanas. O historiador grego Plutarco fala sobre a entrada de Marco Antônio na cidade:

“Mulheres vestidas como Baco, e homens e meninos como sátiros e pãs, lideravam o caminho frente a ele, e a cidade estava cheia de galhos de hera e flores de tiro e harpas e tubas e flautas e as pessoas o saudavam como Dionísio, o doador de alegria e beneficência”

No final do circuito, por volta de meio dia, vimos uma pequena representação da entrada de Marco Antônio e Cleópatra em Éfeso e também de uma luta de gladiadores. Adoramos a surpresa!

Neokoros
Imperador Domiciano

Ultrapassando Pérgamo e Izmir, Éfeso foi considerada uma neokoros (tendo o direito de construir um templo dedicado ao imperador) por 4 vezes e ganhou seu 1º título no reinado de Domiciano (81-96 d.C.).

A cidade também atraiu vários outros imperadores como Júlio Cesar (no ano 48 a.C.), Trajano (entre os anos 113 e 114), Adriano (em 124) e Lucius Verus (162 – 163).

O Monumento Polio

Foi erguido ao lado da Ágora em homenagem a Galus Sextillus Pollio, que havia feito generosas doações a Éfeso, como o Aqueduto e a Basílica. O pedestal de 6,4m é só o que restou, além da principal escultura: o Guerreiro em Repouso, do final do século I d.C. Ela retrata um jovem de cabelo longo e ondulado, meio deitado, com uma expressão calma no rosto. O braço esquerdo está encostado em uma rocha que antes apoiava um escudo. Também a vimos no Museu de Éfeso em Selçuk.

A Fonte e o Templo de Domiciano

Descendo do Odeon chegamos à Fonte de Domiciano. De acordo com a inscrição gravada nela, foi construída em 92/93 d.C.. Ela fica abaixo do Monumento Polio, incorporado na construção, e era ricamente decorada com estátuas trazidas de outros edifícios de Éfeso, como o Templo de Ísis na Ágora do Estado (provavelmente para repará-la após um terremoto).

A decoração mais importante é o Grupo Polifemo, e nós vimos parte dele no Museu de Éfeso. Ele retrata um episódio da Odisseia de Homero em que o mítico herói Odisseu, ao retornar da guerra de Tróia, luta contra o ciclope Polifemo. Odisseu e seus companheiros, capturados na ilha do gigante que comia carne humana, conseguiram se libertar perfurando seu único olho com uma estaca afiada, depois de embebedá-lo com vinho.

A cabeça de Zeus, também exposta no Museu, era da estátua da edícula central do Templo de Domiciano, que tinha colunas de 8 x 13m e foi erguido sobre um terraço. Ele servia ao culto imperial, mas após a morte de Domiciano e a condenação de sua memória (damnatio memoriae), foi dedicado à família Flaviana. Com a vitória do cristianismo, acabou demolido e desapareceu quase por completo.

O Monumento Memmius

Construído entre 50 e 30 a.C. em um local privilegiado, é um monumento para Gaius Memmius, neto do ditador romano Sula. Hoje há uma reconstrução no local, uma montagem arquitetônica que parece uma torre. No original os relevos entre as colunas do andar superior retratavam as “virtudes” do homenageado. Sula foi o 1º romano a usar o exército para atingir um objetivo político. (Infelizmente fez escola…)

Portão de Hércules

Descendo, logo após a Fonte de Dominciano, passamos pelo Portão de Hércules, do século IV d.C. Um portão monumental na Rua Curetes, batizado assim por suas esculturas em relevo do mítico herói grego Hércules vestindo a pele do leão de Neméia. Ele foi construído com materiais reutilizados, incluindo os dois pilares com relevos do séc. II. A ideia era estreitar a rua e impedir a passagem de carroças e cavalos, criando uma área exclusiva para pedestres. Ele também separava a cidade alta do resto de Éfeso.

O relevo de Nike

Não, Nike não é só uma marca de tênis que custa os olhos da cara! Sabe de onde vieram o nome e a logo?

Na Praça Domiciana, perto do Portão de Hércules, vimos o relevo de Nike, uma escultura de mármore da deusa grega da vitória, do séc.II d.C.. Ela é retratada com uma coroa de louros em uma mão e um ramo de palmeira na outra. A escultura fazia parte do arco do Portão de Hércules. Outra Nike, ainda mais famosa, é a chamada “Vitória de Samotrácia”, que vimos nas escadarias do Museu do Louvre, em Paris.

Rua Curetes

Uma das três ruas principais de Éfeso, a Curetes segue do Portão de Hércules até a Biblioteca de Celsus. Ela era uma Rota Processional, uma parte do caminho sagrado até o Templo de Ártemis, e por isso leva o nome dos sacerdotes que cuidavam do fogo sagrado do Prytaneion e que andavam por ela durante as cerimônias religiosas (os curetes). Está super preservada. Ficamos de boca aberta!

Fonte de Trajano

Foi na Curetes que também vimos a monumental fonte. Como diz a inscrição em seu batente, foi mandada construir por Tibério Cláudio Aristão e sua esposa, em homenagem ao imperador Trajano (98-117 d.C.).

A parte central tinha uma piscina retangular de 11,90 X 5,40m cercada por colunas. Eram 2 andares, a fachada de mais de 9m de altura era toda decorada e a colossal estátua de Trajano ficava no nicho central. Destruída por vários terremotos, foi restaurada parcialmente ao longo do tempo, até seu total abandono.

A reconstrução digital abaixo dá uma ideia de como era incrível!

No Museu de Éfeso vimos algumas das majestosas esculturas que adornavam a fonte como a belíssima estátua de Dionísio, a de Afrodite e a de um sátiro reclinado.

As Casas com Terraço

As Casas com Terraço são um complexo de luxuosas vilas romanas que nos dão uma ideia da vida da elite da antiguidade. Elas ficam na encosta do Monte Bulbul, do outro lado do Templo de Adriano.

Também conhecidas como “Casas dos Ricos“, além de água quente e fria, tinham fontes ricamente decoradas. No centro das casas havia um átrio a céu aberto, iluminando e arejando os ambientes. O pátio era cercado por colunatas, com quartos em volta. Costumavam ter dois ou três andares e no térreo ficavam as salas de estar/jantar, cozinhas e banheiros. Os pisos eram de mármore e mosaicos e as paredes decoradas com cenas de peças de teatro e mitológicas, mostrando o interesse dos proprietários pela arte.

Nas famílias ricas romanas a educação começava em casa e continuava depois de uma certa idade nos ginásios. Pinturas e estátuas de filósofos como Sócrates e Platão, encontradas ali, demonstram a prática. A religião também era importante em casa e a lareira tinha papel central na família. Vinho era derramado e incenso queimado em homenagem às deusas Héstia, Artemis e outras divindades, que costumavam ter pequenos nichos e capelas.

Duas casas foram restauradas e abertas ao público, mas a entrada é paga em separado (12 euros). Não entramos porque ainda estávamos no meio do circuito, mas no Museu Arqueológico de Éfeso vimos os artefatos recuperados nas escavações do local em 1950, como cabeças em mármore de homens, mulheres e crianças, joias e moedas, além de torneiras das fontes, decoradas com personagens como Eros montando um golfinho.

Templo de Adriano

Éfeso virou uma neokoros novamente quando Adriano (117-138 d.C.) a visitou em 128 d.C. Dedicado ao imperador por P. Vedius Antoninus Sabinus, o Templo foi construído na junção da Rua Curetes com a Estrada de Mármore. As colunas, decoradas com capiteis coríntios, sustentam um arco com um busto de Tyche, deusa grega da sorte, prosperidade e do destino. As bases das estátuas dos imperadores Diocleciano, Constâncio e Maximiano Galerio sobreviveram e embora o monumento tenha sido danificado por terremotos, foi restaurado usando seu material original.

No Museu Arqueológico vimos quatro dos frisos que recobriam a fonte, um dos quais retrata a lenda da fundação de Éfeso pelo mítico príncipe grego Androclos. Vimos também uma réplica dele em Selçuk, perto das ruínas do Aqueduto.

Biblioteca de Celso

Além de ruínas a gente também ama bibliotecas… essa aqui é de Celso, do ano 135! Celso foi um dos primeiros gregos a se tomar Cônsul do Império Romano e a Biblioteca foi construída em sua homenagem por seu filho, Caio Iulius Aquila, que pagou pela obra com sua fortuna pessoal. Não era comum que pessoas fossem enterradas dentro de uma biblioteca ou mesmo dentro dos limites da cidade, mas Celso está enterrado em um sarcófago debaixo da entrada principal, que tanto é uma cripta quanto um monumento.

As gigantescas estátuas na fachada representavam quatro virtudes: Sofia (Sabedoria), Arete (Coragem), Episteme (Conhecimento) e Ennoia (Pensamento/Inteligência). Arete é a que está mais conservada. Abaixo, uma reconstrução virtual mostra como eram.

A Biblioteca, que era toda coberta de mármore, é considerada uma maravilha arquitetônica e é um dos únicos exemplos restantes do mundo antigo. Era a 3ª maior biblioteca greco-romana, atrás apenas das de Alexandria e Pérgamo. Acredita-se ter contido cerca de 12.000 pergaminhos. Mesmo destruída num terremoto em cerca de 270 d.C., ela é, até hoje, o cartão postal de Éfeso!

Ágora Comercial

Éfeso em seu auge, entre os séculos I e III, foi o principal porto da Ásia Menor e a porta de entrada para as províncias orientais do Império. E a Ágora Comercial era o coração da cidade baixa, um espaço público em que se estabeleceram mercados com lojas e barracas onde se vendia de tudo.

Nas proximidades cresciam muitas frutas como uvas, figos e romãs e os animais vinham das fazendas fora da cidade, portanto vendia-se carne de porco, aves e peixes. O vinho era a bebida indispensável das refeições e cerimônias religiosas e o de Éfeso, produzido nos vinhedos da atual Vila de Şirince, era muito famoso na época. O azeite de oliva mais fino era usado na comida, enquanto o de menor qualidade, nas lâmpadas. Uma das principais ocupações das mulheres era a produção de tecidos, que também eram vendidos ali.

Na Ágora funcionava ainda um mercado de escravos trazidos de vários lugares por via marítima. Era o segundo maior mercado de escravos do Mundo Antigo.

Portão de Mazeus e Mitrídates

A Ágora Comercial tinha três portões e o mais impressionante e mais bem preservado é este. Segundo a inscrição em latim no batente, foi construído por Mazaeus e Mitrídates, ex-escravos do imperador César Augusto. Para comemorar a liberdade, eles o dedicaram ao mestre. A fachada era usada como auditório e os degraus da Biblioteca de Celso serviam de arquibancada para os ouvintes.

Por ele também passavam os comerciantes e as mercadorias que vinham pela rua do Porto até a Ágora Comercial e seguiam para a cidade alta. É a única estrutura em grande escala do programa de construção de Augusto que sobreviveu ao terremoto de 23 d.C.

Apóstolo Paulo em Éfeso

O Templo de Artêmis foi incendiado em 356 a.C., no dia que o Imperador Alexandre Magno, da Macedônia, nasceu. Mais tarde, o próprio Alexandre ofereceu-se para reergue-lo, mas os efésios recusaram a ajuda e o reconstruíram sozinhos, tornando-o mais grandioso que antes.

O Apóstolo Paulo nasceu em Tarso, Turquia, na época parte do Império e era um cidadão romano. No ano 54 (no reinado de Nero) ele chega a Éfeso, onde mora por cerca três anos. Segundo historiadores, Paulo trabalhava na Ágora Comercial e ganhava a vida como fabricante de tendas (há registros de seu nome gravado na Ágora e também no Odeon). Ali ele pregava o cristianismo e reunia cada vez mais gente.

Quando escreveu a carta aos coríntios Paulo estava em Éfeso e, talvez por isso, diante do esplendor do santuário de Artemis, ele fala sobre a igreja de Cristo comparando-a a um majestoso edifício. Paulo pregava no Grande Teatro quando foi expulso de lá por artesãos da Ágora, revoltados em ver suas vendas de imagens da deusa Artemis cair. Mais tarde, já em Roma, ele escreveu a carta aos efésios, em que prega a unidade de judeus e não judeus em um só povo.

Grande Teatro

O Grande Teatro está incrivelmente preservado. A estrutura, em mármore, tem 145m de largura e as arquibancadas chegavam a 30m. Em seu auge podia acomodar até 24.000 pessoas. Além das apresentações teatrais, lá aconteciam assembleias e há também registros de competições de gladiadores. Ele é mesmo enorme e nos impressionou ainda mais que o Estádio Panatenaico de Atenas!

O Grande Teatro começou a ser erguido ainda no período grego e foi ampliado no reinado de Cláudio (41-54 d.C.). Já a fachada do palco, de dois andares, foi construída no governo de Nero (54-68 d.C.) e um 3º andar foi adicionado mais tarde, no séc. II. Mas a obra só foi concluída no reinado de Trajano (98-117 d.C.) quando ergueram um aqueduto para levar água até a fonte do imperador, criando um canal que atravessava a parte de cima da arquibancada.

Estrada de Mármore

O circuito das Ruínas de Éfeso praticamente termina após o Grande Teatro. Mas vimos ainda um pouco mais da Estrada de Mármore, uma rua que fazia parte da rota sagrada que se estendia até o Templo de Ártemis. Ela dava acesso à cidade para quem chegava pelo Porto e era muito movimentada porque nela também ficavam os bordeis frequentados pelos marinheiros.

O Porto e os Terremotos

Romanos proeminentes viajando para o oriente, para assumir governos ou cargos administrativos, geralmente passavam pelo porto de Éfeso. Plínio, o Jovem, e Cícero escreveram em detalhes sobre suas visitas. No entanto, a partir do final do século III, a cidade começou a perder sua relevância por conta dos sucessivos terremotos. O porto foi então gradualmente abandonado, levando ao declínio e abandono da própria cidade.

Ephesus Experience Museum

Finalmente, antes de ir embora, demos uma passadinha no Ephesus Experience Museum, um museu audiovisual que conta a história da cidade e cuja entrada está incluída no ingresso (de 40 euros) das ruínas. Muita gente pula, mas não nos arrependemos de ter passado uns minutinhos por lá. A sala é ótima e a apresentação imersiva é super legal. Recomendamos muito!

Visitar Éfeso foi muito mais emocionante que ir ao Coliseu de Roma (o que fizemos duas vezes), pois ali caminhamos pelas ruínas de uma cidade inteirinha! É o tipo de lugar que faz a gente querer ter prestado mais atenção às aulas no colégio.

E, para quem, como nós, ama história e mitologia greco-romana, sugerimos abaixo três ótimas séries.

Veja também:

Da Piscina de Cleópatra à Boca do Inferno

Kuşadası – a Ilha dos Pássaros

Selçuk, a cidade de Artemis

Şirince e a Casa da Virgem Maria

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Sete Noites em Istambul

Ohrid, Macedônia

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Delfos, o Centro do Universo

Ah… a Grécia!

E Agora as Ágoras

A Acrópole de Atenas

Ilhas Argo-Sarônicas

Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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