Da Piscina de Cleópatra à Boca do Inferno

Estávamos em Kuşadası, a 3 horas de Denizli, a cidade onde ficam as famosas piscinas calcárias de Pamukkale e as antigas ruínas de Hierápolis, patrimônio mundial da UNESCO desde 1988. Assim, contratamos um passeio de um dia até lá com a Leotur Kuşadası, e saímos às 7:25, de frente do antigo Caravanserai.

Pan Thermal Hotel

Nossa primeira parada foi em Denizli, a cidade que abriga Pamukkale e Hierápolis. Já passava do meio dia e fomos almoçar no Pan Thermal Hotel, uma estação de águas termais muito legal, ao pé das montanhas, na área de Karahayıt. Logo após o almoço voltamos para a van e seguimos para Pamukkale.

O tour saiu 85€ por pessoa (5.940 liras, com entradas e almoço incluídos) e foi muito legal porque é para grupos de até 15 pessoas e nossa guia, a Melis Manov, era muito simpática e atenciosa e falava inglês bastante bem. Embora o ritmo da caminhada fosse super acelerado, conseguimos acompanhar todo o circuito.

O complexo é bem grande e dividido em dois: primeiro visitam-se as “montanhas” de calcário e suas piscinas naturais e depois as ruínas da antiga cidade, com templos, um incrível teatro e um museu.

Os Banhos Romanos

Em turco, Pamuk significa algodão e Kale, castelo, então Pamukkale é Castelo de Algodão. Entretanto, essas estranhas colinas são, na verdade, de calcário duro e suas termas milenares são usadas até hoje.

Pamukkale foi fundada como uma cidade grega cerca de 300 antes de Cristo, mas teve seu auge no Império Romano. É interessante notar que quase todas as representações da vida romana antiga mencionam o tempo que os cidadãos passavam nos banhos. Dá até a impressão que, ao contrário da maioria das sociedades da época, a civilização romana era obcecada pela higiene. Mas isso não é verdade.

O banho em si era uma atividade secundária nos Banhos Romanos, que eram lugares para se encontrar amigos, fazer conexões ou mesmo conseguir um convite para jantar. O que na sociologia moderna considera-se um “terceiro lugar”, sendo o lar, o primeiro, e o trabalho, o segundo, os banhos eram um espaço de convivência entre público e privado. Locais que faziam com que os cidadãos sentissem que pertenciam a uma comunidade.

A Piscina de Cleópatra

A antiga cidade de Hierapolis foi construída logo acima de Pamukkale, um resort de piscinas naturais com um grande complexo de banhos romanos que atraía os poderosos da época. Cleópatra VII (69-30 a.C.), por exemplo, fugindo das guerras civis romanas, teria visitado o lugar com Marco Antônio, provavelmente em 41 a.C.

A famosa Piscina de Cleópatra em Pamukkale tem, no fundo, ruínas visíveis ainda hoje. A água que jorra da fonte é clara e dá para ver colunas de mármore e os fragmentos de estátuas.  

Com águas medicinais, ricas em cálcio e magnésio e temperatura de cerca de 35º o ano todo, essas piscinas eram usadas tanto para lazer, quanto para hidroterapia. E continuam sendo! Se quiser aproveitar o passeio para dar um tchibum precisa pagar uma taxa adicional de 200 liras por pessoa (6 euros). Outra dica importante é que, embora haja um vestiário, você tem que trazer suas próprias toalhas.

Travertinos

Passada a Piscina de Cleópatra chegamos à colina de “algodão” de Pamukkale. Essas formações rochosas são chamadas de travertinos, penhascos de calcário criados lentamente ao longo de 400 mil anos pelo borbulhar de fontes minerais. A paisagem parece de outro planeta!

A água da nascente se acumula em pequenas lagoas e a plataforma quadrada reflete o céu azul e as nuvens brancas. São vários terraços de calcário com essas lagoazinhas naturais.

A água quentinha faz relaxar e a gente ficou um bom tempo por lá caminhando pelas piscinas. Há uma espécie de canaleta natural em que a água brota e escorre com pressão e chega até a fazer borbulhas. Uma verdadeira hidromassagem para os pés!

Dica: a área mais bonita de Pamukkale está próxima da entrada e há um movimento infinito de turistas e locais que vem nos fins de semana com suas famílias. Muita gente fica até o pôr do sol, que, sobre os terraços brancos é uma atração à parte.

Hierápolis

Na antiguidade pensava-se que as fontes termais e o calcário ao pé da montanha, tinham poderes mágicos, por isso a cidade logo acima de Pamukkale floresceu.

Patrimônio Mundial da UNESCO, Hierápolis foi construída em 190 antes de Cristo e é uma das 19 cidades gregas, depois romanas, em torno do Vale do Lico. Ela era um centro comercial e religioso e tinha dois grandes banhos, além de bazares, arcos, um enorme Teatro, um grande templo dedicado a Apolo e uma necrópole. Hoje há também um museu com as peças recuperadas das ruínas. O complexo fica aberto até as 18:30.

O Circuito das Ruínas

O circuito inteiro leva cerca de 3 horas. Entramos pela bilheteria no portão norte e as primeiras ruínas que vimos foram as da Necrópole, uma das maiores ainda sobreviventes na Turquia. Ela é um cemitério com mais de 1.000 túmulos, utilizado do século 2 a.C. até o 3 d.C. No Museu, ao final do passeio, vimos os incríveis sarcófagos de mármore retirados dali.

Depois seguimos direto para o banho norte onde vários arcos de pedra, típicos da arquitetura romana, estão conectados. Descendo, há uma avenida que atravessa as ruínas. É importante notar que, diferente de Éfeso e Pérgamo, em que os templos, fontes e ruas foram construídos com mármore, em Hierápolis eles eram de pedra calcária, porosa, o que infelizmente contribuiu para sua deterioração.

Casas Helenísticas

Na área de escavação próxima da Ágora foram encontrados os restos de dois grandes edifícios do período helenístico. Acredita-se que são da época fundação de Hierápolis e que as casas menores, ao redor deles, comportavam de quatro a sete pessoas. Também foram encontrados muitos objetos pequenos, cerâmicas, moedas e lamparinas a óleo produzidas na cidade. É interessante ver a infraestrutura, principalmente como eles trabalhavam com a água e como criaram um sistema de esgoto abaixo das ruas.

Templo de Apolo

A próxima parada foi o Santuário de Apolo, um complexo monumental dedicado ao principal deus de Hierápolis. Ele tinha vários terraços conectados por escadas de mármore. O inferior era um grande arco cercado por um pórtico dórico. Dentro havia um pódio que tinha a função de oráculo, assim como o de Delfos, na Grécia.

Os oráculos tinham uma grande influência em todo o mundo greco-romano e tanto reis quanto guerreiros peregrinavam até eles para consultá-los sobre vários temas, como ir ou não para a guerra ou a fundação de colônias. O templo jônico, do qual só as fundações são visíveis, é do século I d.C.

Plutonium

Uma das grandes atrações das ruínas greco-romanas é o Plutonium, e o de Hierápolis ficou conhecido como o O Portão do Inferno.

Na entrada há um arco com uma inscrição dedicando-o a Plutão e Kore. Embora, originalmente, os romanos não tivessem a noção de um reino para a felicidade ou infelicidade pós-morte, eles acreditavam num imenso buraco chamado Orco, um submundo comandado por Plutão (Hades) e sua noiva, Kore (Perséfone). Segundo o mito, Kore foi sequestrada por Plutão e levada para o submundo. Júpiter (Zeus), rei dos deuses, ordenou sua libertação, mas como ela havia comido uma semente de romã do submundo, ficou presa para sempre.

O anfiteatro e o pórtico jônico foram construídos durante o reinado de Nero, na 2ª metade do séc. I d.C.. Sobre o podium havia estátuas representando Apolo e Artemis.

O ponto principal do santuário é o anfiteatro ritualístico, sobre o qual cerca de 800 fiéis podiam assistir os rituais em frente à caverna de Hades. No local cientistas encontraram dióxido de carbono em níveis que variam de 4 a 53% na boca da caverna, chegando a 91% dentro – mais do que suficiente para matar seres vivos. Ali era comum o sacrifício de touros, que sufocavam com o CO2.

O geógrafo grego Estrabão, que viveu de cerca de 64 a.C. a 21 d.C., descreveu o espetáculo:

“Todo animal que passa por dentro encontra morte instantânea. De fato, os touros que são levados para dentro caem e são arrastados mortos; e eu mesmo joguei pardais e eles imediatamente deram o último suspiro e caíram”. Estrabão reconheceu que essa reação estava relacionada à emissão de gás – “o espaço está cheio de um vapor tão enevoado e denso que mal se vê o chão”.

Os problemas para os humanos começam muito abaixo de 5% causando tontura e taquicardia e uma exposição mais longa a um nível maior que 7% leva à morte por asfixia. Por isso, outro espetáculo que atraía muita gente era a entrada dos sacerdotes de Artemis na cava. Eles eram considerados divinos e poderosos, pois eram os únicos que emergiam vivos do outro lado da caverna (afinal, sabendo dos gases tóxicos, seguravam a respiração!).

Teatro

O incrível Teatro está bem preservado e é uma parte que vale muito a pena visitar. Construído no reinado de Septimius Severus (145 d.C. – 211 d.C.), ele foi erguido sobre um ainda mais antigo, com capacidade para 15.000 pessoas. A arquibancada era dividida em duas por uma passagem no meio e, verticalmente, em 9 setores, por 8 escadarias. Acima havia uma galeria para mulheres e crianças. No centro da arquibancada inferior ficava uma plataforma de mármore com assentos para dignatários. Eles tinham encostos altos e braços terminando em patas de leão.

O Teatro foi usado até o final do império romano e, segundo uma inscrição, o palco foi restaurado no ano 352.

Túmulo de São Felipe

No início do Cristianismo Hierápolis foi uma comunidade ativa, mencionada nas Epístolas Paulinas (Colossenses 4:13) e é conhecida também como o local onde o Apóstolo Filipe teria sido martirizado e enterrado. Ver todas as estruturas gregas e romanas dedicadas aos deuses, nos faz pensar no desafio vivido pelos primeiros cristãos nessa região.

Museu de Hierápolis

No final do passeio visitamos o Museu Arqueológico, é claro! Afinal nunca pulamos um museu, se pudermos evitar. Ver e entender as peças ajuda a dar sentido ao passeio em si. O de Hierápolis exibe um grande número de estátuas e sarcófagos desenterrados das ruínas, esculturas da Grécia e Roma antigas e muitas moedas e joias de ouro e prata, que são muito delicadas e bonitas.

A mim me importa CONHECER… Esta é minha ambição… O TER é um caminho e não um fim. Não quero grandes posses… Quero grandes experiências, grandes papos com gente inteligente, paisagens diferentes, ver coisas surpreendentes e muitas, muitas boas lembranças…como essa!

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Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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