História e Cultura: 7 noites em Istambul

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Quando eu estava no 7º ano e estudava, desinteressadamente, a ascensão do Império Bizantino, não imaginava ir para Constantinopla um dia… Mal sabia que a cidade fundada em 324 antes de Cristo era a maravilhosa Istambul.

Então, 36 anos depois, chegamos à essa metrópole histórica, linda e caótica, que deixa a gente confuso no começo, mas também apaixonado. 

Nosso plano foi dividir nossas 16 noites na Turquia assim:

Como chegar

Para ir pegamos um voo direto de São Paulo com a Turkish Airlines. A viagem é cansativa, 12 horas, e o voo só saía às 4h00 da manhã. Com o fuso, chegamos às 22:45, só que até passar imigração e pegar o táxi que a gente tinha reservado pelo Booking, já era meia noite. (O trajeto custou 180 reais, mas valeu a pena!)

Onde Ficar

Embora a capital do país seja Ancara, Istambul é o centro industrial, comercial, cultural e universitário da Turquia. E ela é grande. Bem grande! Uma megalópole de 15,5 milhões de pessoas espalhadas por uma área recortada pelo estreito de Bósforo, que liga o mar Negro ao mar de Mármara. Ela é dividida em distritos, e estes em bairros, e você precisa escolher de que lado do chamado Corno de Ouro quer ficar.

Muita gente fica no bairro de Sultanahmet, no centro histórico de Fatih, o distrito das Mesquitas e onde está grande parte das atrações turísticas. É importante lembrar que se locomover custa tempo e dinheiro, mas não adianta querer fazer tudo a pé. O cansaço sempre vence a ideia inicial de economia.

Por isso, tendo 6 dias inteiros para explorar, optamos pelo distrito de Beyoğlu, com ótimo transporte público e considerado um dos melhores exemplos da Istambul europeia. De lá atravessávamos a Ponte Gálata e chegávamos a Eminonü e Sultanahmet bem rapidinho.

Hotel ou hostel?

Há anos aprendemos a ficar em hostels, pois, ao longo do tempo o conceito desse tipo de hospedagem mudou muito. Há hostels onde além de aproveitar o ambiente coletivo a gente pode ter um quarto privativo, com banheiro, pagando um pouquinho mais. Entretanto, dependendo do lugar pode não ser a opção mais econômica ou popular. É o caso de Istambul, onde a tradição dos hotéis predomina. O nosso (o Taksim Mood) ficava a 35 minutos do aeroporto, na Bekar Sok nº24, nesse prédio que tem uma bandeira da Turquia pendurada na janela.

Como nem tudo são flores, depois de quase 2 dias de viagem pra chegar, e uma fila imensa na imigração, o taxista não conseguia achar o hotel porque estava faltando luz na quadra inteira! Procura e pergunta…finalmente achamos. Sem luz até as 6 da manhã, subimos as escadas (ainda bem que era no 2o andar) e fomos dormir sem banho mesmo, porque banho de água fria à 01:30 da madrugada ninguém merece. Pelo menos o quarto era grande!

1º Dia

Ístiklal e Karaköy (Beyöglu)

No dia seguinte veio a surpresa: estávamos mesmo super bem localizados! Nossa rua era cheia de restaurantes tradicionais e estávamos a menos de uma quadra da Avenida Ístiklal (o coração de Beyoğlu ) e pertinho da estação Taksim. Nosso o plano era acordar cedo pra bater perna, mas esse corpinho de 50 anos aqui já não tem o mesmo pique de outrora. Conclusão: café da manhã às 13:30!

Simit Sarayi

Já conhecíamos a rede de lanchonetes Simit Sarayi de Belgrado e quando a vimos já nos sentimos reconfortados. Ela fica bem na Avenida Istiklal e serve salgados, folhados, rosquinhas e doces no estilo fast food. 

Dica: não espere encontrar McDonald’s e Burguer Kings em todo lugar pois as lanchonetes locais dominam. Até tem, mas em 6 dias, só vimos um de cada, perto da Praça Taksim. De qualquer forma, que “gênio” ia querer ir a um fast food gringo num país barato e famoso por sua culinária?

Uma coisa bem legal é que, subindo com nosso lanche para nos sentar no 2º andar (onde há mesas), ficamos ao lado de uma grande janela aberta de onde podíamos ver o tradicional bodinho Taksim passando para cima e para baixo. Depois, com o pandulho bem cheínho saímos para ir atrás do nosso cartão de transporte.

Ístiklal Caddesi

A Avenida da Independência (Ístiklal) é um grande calçadão de 1,5 km que liga a praça Taksim à praça Tünel. Ao longo dela há dezenas de lojas, restaurantes e cafés. Caminhamos sem pressa e curtimos todo seu agito, observando turistas e locais nesse verdadeiro formigueiro humano. Foi lá que compramos nosso e-chip para o celular.

Comunicação

Em Istambul mesmo sem falar inglês o povo se esforça pra atender os turistas, afinal são os melhores vendedores do mundo. Mas conseguimos aprender algumas palavrinhas para sermos turistas bem educados:

Günaydın é bom dia / Merhaba (mérabá) : olá / Selam é o nosso “oi” / Selamum Aleykum: que a paz esteja com você / Teşekkürler (techê kullêr): obrigado / Evet: sim / Tamam: tudo bem / Pardon: com licença e Güle güle: tchau.

Também aprendemos que Meydanı é praça, Caddesı é avenida, Camı é Mesquita, Kullesı significa torre e Iskele é doca.

Dica: um e-Sim da Vodafone custa um rim. Já o da Turk Cell custa só meio! Pagamos 175 reais para 30 dias. Valeu a pena pois não tivemos problema de conexão em nenhuma das 8 cidades que visitamos.

Simit e Doces Everywhere!

Num país famoso por ser governado pelo estômago, o simit (anéis de pão de gergelim) é o combustível que move o povo. Eles são vendidos em toda parte, por vendedores de rua empurrando seus carrinhos ou carregando cestas, em padarias, cafés, no bonde, no trem, nas estações de metrô e até nas balsas. Ao longo da Avenida Istiklal há vários. Isso foi uma das primeiras coisas que notamos.

Também nos apaixonamos pelas vitrines de doces! Algumas lojas são verdadeiras galerias de arte, como a tradicional (e cara) rede Hafiz Mustafá.

Çiçek Pasajı

Uma das atrações da Ístiklal Caddesi é a Ciçek Pasaji  (Passagem das Flores), uma galeria coberta que conecta a avenida ao Balik Pazari (Mercado de Peixes). O lugar é muito tradicional e seus restaurantes são bem caros, por isso demos apenas um rolê.

Basílica de Santo Antônio de Pádua

Escondida dentre as lojas, hotéis e restaurantes, fica a Basílica de Santo Antônio, uma igreja católica. Ela tem mais de 100 anos e está dedicada ao Papa João XXIII, muito respeitado no país e considerado “Amigo do Povo Turco”. João era franciscano e atuou na 2ª Guerra, conseguindo documentos falsos e salvando centenas de judeus, inclusive um barco cheio de crianças judias que aportou em Istambul. Ele morreu em 1963.

Praça Taksim

A Praça é um importante marco da cidade e serve ponto de transição entre as várias linhas do transporte público. É também famosa pela estátua homenageando os heróis da independência turca.

Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) foi o grande líder e quem estabeleceu a República no país. Os turcos tem um profundo respeito por ele e o homenageiam em todas as cidades com nome de ruas e monumentos, como a grande estátua de bronze na praça Taksim. As mulheres também atribuem a ele sua liberdade como cidadãs com direito ao voto e à emancipação. Seu rosto estampa o dinheiro e todo 10 de novembro (dia de sua morte), às 9:05 da manhã, o povo faz um minuto de silêncio para lembrá-lo. Nas livrarias as vitrines exibem livros com sua história e o aeroporto doméstico da cidade leva seu nome.

Mesquita Taksim

Na praça também fica a Mesquita Taksim. Passávamos por ela indo para a estação o metrô. É grande e parece bem bonita por fora, mas não chegamos a ver por dentro.

O Transporte

Deslocar-se pela cidade é fácil, pois há um amplo sistema de transporte público com ônibus, tram, metrô, funicular e balsas, mas para cada trecho cobra-se uma passagem separada (conexão não significa economia).

Na Praça Taksim fomos até a estação de metrô (de mesmo nome) e compramos o nosso Istanbul Kart, o cartão que dá direito a todos os meios de transporte e até aos banheiros públicos (que são bons, mas pagos). Custa 70 liras (cerca de R$15,00). Carregamos o nosso com créditos (compramos um só, pois dá pra duas pessoas usarem o mesmo) e lá fomos nós para a margem do Bósforo fazer um primeiro reconhecimento.

O Bondinho

Como Beyoğlu fica na parte mais alta da cidade, assim como em Lisboa, para chegar à parte baixa é preciso pegar um “elevador”. O funicular fica num tunel histórico ligando a İstiklal à rua Sahne. Pegamos o bondinho na Istiklal até a praça Tünel e de lá descemos com o funicular para ver o mar.

O Túnel

O Túnel, considerado o 2º metrô mais antigo do mundo, foi encomendado pelo sultão Abdülaziz Han, em 1869, para um projeto ferroviário semelhante a um elevador, que ligaria os bairros de Gálata e Pera. Ele levou 3 anos para ficar pronto (1871-1874) e foi planejado para operar por 42 anos. Inaugurado em 1875 após uma magnífica suntuosa cerimônia, funciona até hoje levando 170 passageiros por vez pelos 573 metros de subida / descida em apenas 90 segundos.

Dica: outra maneira de ir é pegar o metrô na estação Taksim e descer na Kabataş.

De frente para o Bósforo

Napoleão costumava dizer que se o mundo fosse um estado, Istambul seria sua capital. E, de certa forma, o Estreito do Bósforo é uma metáfora para a própria cidade. Sua antecessora, Constantinopla, surgiu das margens do Bósforo para se tornar a sede dos impérios romano, bizantino e otomano. Graças ao estreito, Istambul é a única cidade do mundo que abrange dois continentes.

Nossa primeira parada turística, oficial, foi aqui. Fim de tarde, pôr do sol…. de frente para o Bósforo, com essa paisagem a nossa frente, compreendemos porque essa cidade cheia de história, charme e beleza, é verdadeiramente onde o oriente e o ocidente se unem.

Karaköy

Istambul é onde as coisas para fazer nunca terminam e Karaköy é um exemplo. Um bairro portuário vibrante e contemporâneo… uma delícia para passear, tomar um café, comer um sanduíche de peixe ou um marisco nas várias barraquinhas de rua. Bares se misturam com padarias tradicionais, lojas familiares e prédios da era otomana decorados com arte de rua, e que hoje são estúdios e butiques.

Foi em Karaköy que provei o famoso midye, o marisco recheado com arroz que vendem em todo canto em Istambul. (12 liras cada um – R$1,80). Achei uma delícia!  Já o Seu Edevaldo Miguel não quis nem ver! 

Outra opção de lanche muito tradicional é o balık ekmek (o sanduíche de peixe). Há várias barracas pelo bairro e lanchonetes especializadas na região das docas.

À noitinha também paramos parta um cafezinho com torta no Café Le Petit Pera. Demos uma voltinha e, como já estávamos cansados, resolvemos ir novamente outro dia para explorar bem.

Terminado o passeio, fomos à estação Kabataş e pegamos o tram até a Taksim. Já de volta ao hotel, resolvemos jantar quase ao lado mesmo.

Beyoğlu Ocakbaşı

O Beyoğlu Ocakbaşı fica na Bekar Sok nº20 e é bem gostoso. Comemos um iskender kebab, que como já tínhamos visto em Sarajevo, não é necessariamente um espetinho, mas carne temperada e assada, às vezes envolta em massa de pide com manteiga, servida com iogurte, tomate e pimentões grelhados. Pedimos também uma sopa de lentilhas, uma pastinha de berinjela e uma coalhada seca, que vieram com pão sírio. Uma delícia. Para acompanhar, um raki (licor de anis, o mesmo que o ouzo da Grécia). O lugar não era muito barato, mas valeu a pena.

Dica: os restaurantes sempre colocam pão e azeitonas na mesa e mesmo que você não coma eles cobram. Comida de rua é boa e barata, mas se botar o pé num restaurante em Istambul vai gastar pelo menos 1.100 liras pra duas pessoas.

2º Dia

Eminonü e Bósforo (Fatih)

Vários restaurantes oferecem café da manhã, mas como já tínhamos visto na Bósnia e na Albânia, os muçulmanos praticamente almoçam logo cedo: kafta de carne com cebola, ovos com molho de tomate (o “menemen”), pepino, azeitona, pão pita, húmus, folhado com recheio de queijo e espinafre e, eventualmente, geleia, mel e manteiga, além do café preto e forte ou chá. Achar uma padaria ou confeitaria para comer só um pãozinho ou pedaço de bolo é possível, mas elas não costumam vender café e muito menos com leite.

Já que o café da manhã turco não é muito a nossa praia, acordamos cedo e comemos uns croissants de chocolate e iogurte que a gente tinha comprado no dia anterior. E lá fomos nós atravessar o Bósforo para passar o dia no bairro de Eminonü.

Mesquita Yeni

Atravessando a Ponte Gálata, fica a Yeni Cami Meydani, também chamada de Mesquita Nova. Ela chama a atenção na paisagem, pois é imponente e muito bonita por fora, mas entramos somente no pátio interno. Afinal ainda tínhamos outras três para visitar em Fatih e nem só de mesquitas vive o turista, não é?

Dica: mesmo quando está calor as meninas devem evitar sair de ombros e pernas de fora e devem ter sempre um lenço na bolsa, pois mais da metade das atrações da Turquia são mesquitas!

Almoço em Eminönü

As margens do Bósforo são cheias de embarcações que fazem passeios pelo estreito e muitas delas são também restaurantes e bares ancorados ali. Eles costumam ser bem caros. Como queríamos fazer o passeio de barco às 14:00, compramos nosso ticket e resolvemos comer um lanche numa das barracas de comida espalhadas ao longo do calçadão. Alias, é o que fazem diariamente tanto os locais como os turistas.

Comemos um döner, o nosso churrasquinho grego, aquela carne assada que eles cortam bem fininha e colocam com muita salada dentro do pão sírio. É um sanduiche grande e bem gostoso, além de barato.

Curiosidade: eles bebem Suco de Picles!

Para ver antes de ir

Aşk 101 (Love 101, 2021)

Na série os estudantes Kerem, Eda, Osman e Sinan se reúnem depois da escola pra tomar um tursu suyu (suco de picles) enquanto bolam um plano pra não serem expulsos do colégio. A gente vê mesmo essas barraquinhas em vários lugares mas não dá coragem de beber! A série mostra também vários lanches e comidas típicas que encontramos depois pela cidade, como o borek (o burek da Bósnia), o balik ekmek (sanduíche de peixe), o kumpir (batata recheada) e o ayran (iogurte salgado). Afinal, adolescentes estão sempre com fome!

Tour pelo Bósforo

O Bósforo é um estreito entre a Europa e a Ásia que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara. Enquanto por muitos séculos os sultões propuseram a construção de uma ponte cruzando o Bósforo, foram os barcos – e mais tarde as balsas – os responsáveis por conectar a cidade.

A introdução de balsas públicas em 1844 permitiu que as pessoas que viviam ao longo do Bósforo, da entrada próxima do Mar de Mármara e do estuário do Corno de Ouro, se deslocassem facilmente entre os vários bairros à beira-mar. Até hoje são os barcos que realmente interligam as várias comunidades turcas, gregas, armênias, árabes, búlgaras e judaicas de Istambul, percorreram o estreito de cabo a rabo.

O tour de balsa passa pelas Fortalezas Rumeli e Anatólia, no ponto mais estreito do Bósforo. Há também magníficos palácios ao longo passeio como Dolmabahçe, Beylerbeyi, Ciragan, além da Academia Militar, a lha Galatasaray, o vilarejo de Kanlica Iskelesi, Küçüksu Kasri e a Mesquita Ortakoy. E tudo isso por apenas 150 liras (menos de 25 reais!). E pra rebater o vento ainda tinha um chazinho quentinho!

Há várias empresas que oferecem o passeio, alguns duram até 2 horas, mas optamos por um mais curto, pois queríamos aproveitar nosso tempo para explorar o máximo a pé. É bom chegar com pelo menos meia hora de antecedência para comprar o ingresso e pegar um bom lugar no barco. A paisagem é incrível! Tiramos centenas de fotos. A visão da Torre Gálata do outro lado é uma memória que você levará para sempre.

Ao voltar do passeio você pode atravessar a Ponte de Gálata e subir até a Torre para curtir a vista panorâmica de seu mirante, principalmente na hora do por do sol. Outra opção é deixar para visitar a torre com calma, outro dia. Foi o que fizemos.

Ponte Gálata

Ao longo dos séculos várias pontes foram erguidas para conectar as duas margens do Corno de Ouro. De acordo com algumas fontes, durante a conquista de Istambul o Sultão Mehmet II construiu uma. Quanto Constantinopla caiu, em 1453, ela teria sido usada como passagem para o exército de um lado a outro.

Oficialmente já houve quatro pontes, a chamada Ponte Gálata foi erguida em 1912 por uma empresa alemã que cobrou 350 mil liras de ouro pela obra. Ela tem 466m e foi usada ininterruptamente até ser destruída por um incêndio em 1992. A atual foi construída logo depois e vive cheia de turistas e locais, muitos dos quais aproveitam para pescar um peixinho pra família! A vista lá de cima é genial e adoramos passear por ela.

Dica: os restaurantes abaixo da ponte são pitorescos e parecem simples, mas são caríssimos!

Restaurante Diwan

Para jantar voltamos à Bekar sok (nossa rua). Desta vez ao nº18. O Diwan é um pouquinho mais barato que o Ocakbaşı, mas bem gostoso. Estávamos com fome. Pedimos uma Ezogelin Çorbasi (sopinha de lentilha), burek de queijo, 5 rolinhos do tipo primavera e 2 kibes recheados com carne e nozes (bem apimentados!). As sopinhas são deliciosas e baratinhas! Cerca de 16 reais cada. E, como de praxe, ganhamos um chazinho!

3º Dia

Eminonü (Fatih)

Já bem ambientados, logo cedo rumamos novamente para o distrito de Fatih, para explorar um pouco mais o bairro de Eminonü. É o distrito das mesquitas. Aliás uma coisa que nos chamou muito a atenção é a chamada para a reza. Geralmente são cinco vezes ao dia, conhecidas como Fajr (amanhecer), Dhuhr (meio-dia), Asr (tarde), Maghrib (pôr do sol) e Isha (noite). De repente para todo o som das coisas e só se ouve a mesquita chamando para rezar.

Complexo Süleymaniye

A Mesquita Süleymaniye foi construída num dos sete morros de Istanbul para o Sultão Süleyman (o magnífico). O maior arquiteto da Turquia, Mimar Sinan a terminou em 1557 após 7 anos de trabalho. No Islã, as mesquitas não são consideradas apenas um local de culto, mas também um centro social que atrairia pessoas de diferentes partes da sociedade. Por isso, o complexo tinha também um hospital, um colégio, jardim de infância, biblioteca, cozinha de sopas, hospedaria e banhos. Professores costumavam vir e dar aulas de física, astronomia, matemática e outras matérias.

Dentro, é muito comum ver crianças correndo, pessoas descansando e alunos estudando para provas. O lugar é mesmo enorme e a visita leva algum tempo. Lembrando que para entrar as mulheres tem que cobrir a cabeça e os ombros não podem mostrar as pernas. E os homens tampouco podem entrar de bermuda.

Os Bazares

Os turcos são conhecidos por serem grandes comerciantes. Temos até a mania de chamar vendedores aguerridos de “turcos” (mesmo sendo libaneses ou árabes). Eles certamente fazem jus ao apelido pois ao longo dos séculos seus famosos bazares tornaram-se uma grande atração. Até os murais nas estações de metrô mostram essa história.

Mısır Çarşısı (Bazar de Especiarias)

Bem próximo à estação do tram (bonde) e quase em frente à Ponte de Gálata fica este mercado, que é também conhecido como Bazar Egípcio porque durante o período otomano as exportações egípcias eram vendidas ali. Trata-se de um antigo bazar coberto, com dois corredores e cerca de 100 lojas. Como o nome já diz, o forte são os temperos, condimentos e doces turcos, que deixam o ambiente super colorido e com um cheiro bem gostoso.

O Mısır Çarşısı começou a ser construído em 1567 e funciona até hoje, vendendo também joias, tapeçarias, decorações… de tudo um pouco. Lindo por dentro! Ficamos encantados, entretanto é tudo muito caro. Mesmo pechinchando não vale a pena comprar nada. Uma simples baklava custa 90 liras a unidade. Compramos pra ir comendo durante a visita, mas dá pra comprar 3 com esse valor em outros lugares.

Túmulos de Turhan

Como ficava no caminho entre o Bazar de Especiarias e o Grand Bazar, demos uma passadinha para ver. O túmulo do Sultão Turham é o mausoléu de 5 sultões: Mehmet IV, Mustafa II, Ahmed III, Mahmud I e Osman III, juntamente com seus filhos e esposas. É um local muito significativo na história otomana. Fica na esquina da rua Bankacilar com a rua Yeni Cami. A estrutura quadrada tem uma fachada de mármore e é coberta por uma cúpula e o interior é decorado com azulejos azuis e brancos.

Büyük Çarşı (Grand Bazar)

Um dos mercados cobertos mais antigos do mundo, o Grand Bazar é de 1461. São centenas de lojas vendendo de tudo, desde tapetes artesanais até café turco. A atmosfera é elétrica. Quase 600 anos de vai e vem, compra e vende, pechincha e negocia… Por dentro, as grandes colunas de pedra atestam os séculos de história. Tem também muitas e lindas joalheiras! “Muito ouro, Inshalah!”

As ruas adjacentes também fazem parte do Grand Bazar, são 60 ao todo com cerca de 5 mil lojas. Nós fomos a pé depois de visitar o Mısır Çarşısı, mas é possível pegar o bonde na estação Sultanahmet e descer na estação Beyazit. 

É realmente um passeio inesquecível, mas não dá pra comprar quase nada. Compramos apenas uma fantasia de odalisca para minha afilhadinha de 8 anos, e só depois de muita pechincha. Afinal, embora não tenha adotado o euro, a Turquia não é mais tão barata e os preços são “eurorizados”. Aliás, pra quem quer mesmo fazer compras a Avenida Istiklal é uma opção melhor.

Para ver antes de ir

Último Guardião (The Protector, 2018)

O jovem Hakam trabalha na pequena loja de seu pai, no Grand Bazar. Quando um cliente misterioso insiste em comprar uma antiga túnica, ele descobre seus laços com uma ordem secreta e embarca numa missão para salvar a cidade de um inimigo imortal. Série com um pouco de tudo: super herói, aventura, mistério, história, arqueologia, maldiçōes, rituais e romance…

De volta ao Diwan

Novamente na Ístikal demos mais uma volta por ela (agora no fim do dia) pra curtir a atmosfera e terminamos a noite no Diwan outra vez, tomando mais uma sopinha de lentilhas com pide e papando um kebab. Desisti de emagrecer nessa vida… Vou tentar na próxima!  

4º Dia

Sultanahmet (Fatih)

Acordamos cedo e rumamos para Sultanahmet para visitar a icônica Basílica de Santa Sofia e suas famosas Cisternas, além da Mesquita Azul, já que ficam no mesmo complexo.

Cisternas da Basílica

Um francês que visitou Constantinopla nos anos 1500 ouviu estranhos relatos de moradores que retiravam água doce e até pescavam em buracos feitos nos porões de suas casas. Intrigado por essas histórias e pelas lendas de templos subterrâneos, ele decidiu explorar e encontrou uma maravilha há muito esquecida, a maior das cisternas palacianas do Império Bizantino. Peixes nadavam num lago artificial de água doce do tamanho de dois campos de futebol e os tetos abobadados eram sustentados por 336 colunas de 9 metros de altura, retiradas de ruinas romanas.

Nós já havíamos comprado os bilhetes para as Cisternas pela internet na noite anterior e a visita estava marcada para as 9 da manhã. Foi uma boa opção, pois chegando lá havia uma fila imensa e nós não precisamos enfrentá-la. Pagamos 1.760 liras (R$286,00 para os dois). Achamos bem caro, mas o governo turco havia acabado de reajustar os valores para estrangeiros. Entretanto, nunca um dinheiro foi tão bem gasto! Estávamos muito ansiosos para ver com nossos próprios olhos o impressionante cenário do filme “Inferno”, com Tom Hanks e não nos arrependemos.

Apelidado de Yearbatan Sarayi, ou “O Palácio Submerso” em turco, o local é conhecido como a “Cisterna da Basílica” e foi construído em 532 pelo imperador Justiniano I para armazenar água limpa para o palácio e edifícios próximos. Ficou surpreendentemente preservado apesar de séculos de conflito e cerco.

Quando a construção teve início Constantinopla se recuperava da Revolta de Nika, que ocorreu após uma corrida de bigas terminar em arruaça, com grande parte da cidade imperial incendiada e 30.000 manifestantes mortos pelas tropas de Justiniano. As cisternas eram parte dos esforços de reconstrução.

No passado os visitantes podiam alugar um barco a remo para passar pelas colunas sombrias e sentir a água gotejando. Imagina que legal! As restaurações dos anos 80 dragaram o solo, mas ainda há peixes nos espelhos d´água, agora superficiais, o que ajuda a manter a água limpa. Também foram adicionas passarelas, iluminação e até um café.

As duas bases gigantes em formato de cabeças de górgon no fundo da cisterna são um mistério intrigante. Suspeita-se que possam ter sido retiradas de um templo pagão mais antigo, onde imagens da Medusa eram usadas como emblema protetor. É possível que a colocação desses dois rostos – de cabeça para baixo e de lado, na base das colunas – tenha sido para mostrar o poder do novo Império Cristão. Mas também pode ser que as pedras só fossem do tamanho certo.

Saímos de lá às 11:00 da manhã e a fila para a Hagia Sofia estava enorme, assim resolvemos deixar para vê-la à tarde, depois que a excursões de turistas já tivessem ido embora (já que fica aberta para visitação até as 19:00).

Para ver antes de ir

Inferno (2016)

Baseado no livro de Dan Brown o filme é uma sequência de Anjos e Demônios e de O Código Da Vinci, e se passa em Florença, Veneza e Istambul. O professor de semiótica Robert Langdon está na mira de uma grande caçada quando sofre um atentado. Com a ajuda da Dr. Sienna Brooks ele tenta recuperar a memória, resolver o enigma mais intrigante que já viu e salvar a humanidade. Locações das cenas finais na cisterna da Basílica!

Mesquita Azul

Atravessando a praça chegamos à linda Mesquita Azul, outro símbolo da cidade. O nome original é mesquita de Sultanahmet e ela é coberta por mais de 20 mil azulejos azuis. Por isso o apelido. É a única com 6 minaretes e foi considerada a Mesquita Imperial Suprema em Istambul. Construída por Sedefkâr Mehmet Aga em 1609-1617, ela tem uma simetria perfeita. Ainda bastante utilizada pelos muçulmanos para orações, dentro o ambiente é fresco e agradável para sentar no tapete e apreciar a beleza da arquitetura, descansando um pouco. Também é muito iluminada, pois tem 260 janelas.

Dica: ela abre cedo (depois da oração Fajr). A entrada é gratuita, mas lembre-se de vestir-se de acordo (véu para cobrir cabeça para as mulheres e nada de shorts. Se esquecer, eles emprestam na entrada, mas seu figurino pode não ser dos melhores!)

Ao sair aproveitamos para conhecer a praça do Hipódromo, construído em 203 d.C. pelo imperador Septimus Severus, o local era o centro da vida política e social de Constantinopla. Hoje o lugar é muito movimentado e no verão o pessoal faz até piquenique ali. Há também vários carrinhos de simit, castanhas e milho verde. Comprei uma espiga e saí comendo!

Museu Hagia Sofia

Os ingressos para a Basílica davam direito a visitar seu Museu, que fica num prédio alguns metros à frente. Pagamos 3.420 liras para dois (R$557,00), bem carinho, então o negócio era aproveitar bem! Normalmente as pessoas visitam a Basílica primeiro, mas fazer o contrário vale a pena. O museu é moderno e aprendemos muito sobre a Hagia Sofia (as 3 delas) através de animações, painéis e projeções.

A Primeira Basílica: a construção da Hagia Sofia começou no reinado do imperador romano Constantino, o primeiro imperador cristão de Roma, e foi concluída por seu filho, Constâncio II. A primeira basílica foi erguida sobre as ruínas do templo da deusa grega Artemis e durou de 360 a 404. Quando o bispo de Constantinopla, João Crisóstomo, entrou em conflito com a Imperatriz Aella Eudóxia, esposa do imperador Arcádio, foi mandado para o exílio, o que causou uma grande revoltada da população. A igreja foi então incendiada e totalmente destruída.

A Segunda: logo depois, Teodósio II (408 – 450) encomendou outra igreja no mesmo local, que foi inaugurada em 10 de outubro de 415. Ela durou até 13 de janeiro de 532, quando novamente queimou até o chão durante protestos em massa contra o imperador Justiniano I (527 – 565).

A Terceira: pouco depois de Justiniano ter conseguido acabar com os protestos, ele ordenou que a 3ª Santa Sofia fosse construída sobre as ruínas da antiga, e que fosse ainda maior, pois queria torná-la a maior catedral da Terra. E lá ela permanece até hoje.

Theodora (basilica San Vitale, Ravenna)

Curiosidade: Constantino nasceu na Cidade de Niš, na atual Sérvia e morreu na Grécia, mas durante seu governo o império romano compreendia toda a região dos balcãs, além de parte da Alemanha e da Inglaterra. Ele ficou conhecido por ser o primeiro imperador cristão e foi em seu governo que o domingo tornou-se um dia de descanso. Valeu Constantino! Já sua esposa, Teodora, é considerada santa pela Igreja Ortodoxa.

Old Konak Café Restaurant

Em volta da praça há inúmeros restaurantes, mas quanto mais perto da Hagia Sofia mais caros eles são. Então demos uma volta pelo bairro, curtindo o movimento e as lojas até encontrar um lugar simpático e com preços bons.  Já eram quase 16:00 e estávamos com fome quando nos sentamos ao ar livre no Old Konak Café e pedimos um “pide” (esse pão sírio com carne moída temperada e queijo), fasulye (aperitivo de feijão cavalo) e uma salada de atum, um ice-tea e um suco de laranja. Tudo bem gostoso e, com o calor, foi o suficiente. O pide tinha acabado de sair e estava quentinho. Gastamos 1.110 liras.

Hagia Sofia

Dedicada à Hagia Sofia ou “sabedoria divina”, ela é um dos maiores exemplos da arquitetura bizantina e foi construída entre 360 e 537 d.C. Fundada como basílica cristã, foi transformada em mesquita pelos otomanos, virou um museu em 1934 por ordem de Atatürk, o fundador da república turca. E assim permaneceu até 10 de julho de 2020, quando voltou a ser uma mesquita por decreto do presidente Erdogan. Entretanto, como patrimônio da humanidade, uma parte permanece aberta à visitação como museu. É considerada um dos maiores símbolos do país.

Essa não foi a primeira Hagia Sofia que visitamos. Já tínhamos conhecido sua réplica em Sófia, na Bulgária. Mas com certeza essa velha gigante é muito mais impressionante.

Por muitos séculos, ela foi a maior igreja do mundo, e ainda possui a 4a maior cúpula depois de St. Paul’s em Londres, St. Peter, em Roma e o Duomo em Florença. Digamos que a Santa Sofia Está para a Turquia assim como o Vaticano para a Itália.

Colunas tiradas do Templo de Artemis em Éfeso foram usadas nas naves da catedral e 8 colunas de granito do Egito suportam as as semi-cúpulas. Uma grande parte dos mármores vieram de várias cidades antigas. O branco foi trazido da ilha de Mármara, o rosa de Afyon, o amarelo do norte da África e o granito verde da ilha de Eubeia, na Grécia.

Mermer Kapi (Porta de Mármore)

A Porta, do século Il a.C., é o elemento arquitetônico mais antigo da Hagia Sofia. Ela foi trazida de um templo pagão em Tarso pelo imperador Teófilo (829 – 842) e é um divisor de mármore, separando a área privada do Imperador do resto do Palácio Imperial. Esses lugares são chamados de “Metatorion” e eram usados para o imperador assistir a rituais, para reuniões privadas e trocar de roupa. Estava ligado ao palácio por uma passagem na parede. A porta é adornada com os mesmos motivos do piso, também de mármore.  

Hünkâr Mahfili (Sala de Orações do Sultão)

Os Hünkâr Mahfili (ao fundo à esquerda) são locais especiais criados na arquitetura otomana. Era usado para que os sultões realizassem as orações de sexta-feira e cultos especiais, como as orações noturnas do Kandil, datas importantes do calendário muçulmano. O atual foi acrescentado à Hagia Sofia pelos Irmãos Fossati no reinado do Sultão Abdülmecid (entre 1847 e 1849).

O Púlpito

O púlpito é uma plataforma alta com escadas onde os imam-hatips sobem e fazem sermões às sextas-feiras. O púlpito da Hagia Sofia foi construído durante o reinado do Sultão Murad III. É um dos mais belos exemplos do trabalho em mármore do período otomano do século XVI.

Os Mosaicos

No Museu da Hagia Sofia já tínhamos aprendido um pouco sobre os famosos mosaicos da Basílica, e agora finalmente os estávamos vendo ao vivo e a cores. Em grande parte a pintura foi restaurada e os vestígios cristãos apagados, entretanto alguns dos antiquíssimos mosaicos permanecem, dentre eles um de Jesus. Ao contrário do que muita gente pensa, o islamismo é uma religião monoteísta que acredita em Deus (Allah) e seus profetas, crendo também que Jesus era um deles.

No Mosaico do Vestíbulo a Virgem Maria está no centro, carregando o Menino Jesus, com os imperadores Constantino I, o fundador da cidade, à direita, e Justiniano I à esquerda. As inscrições revelam as identidades: “Constantino, grande imperador entre os santos” e “Justiniano, imperador de gloriosa memória”. Eles apresentam a cidade e a igreja que fundaram à Virgem Maria, sua protetora. As palavras “MATER” e “THEOU” (Mãe de Deus) ao lado da Virgem enfatizam a santa. Sabe-se que o caminho que o imperador percorria para chegar do Palácio à Hagia Sophia era por essa entrada, de onde seguia para a porta principal. O lugar era reservado, portanto, para ele e sua comitiva. 

O Mosaico de Jesus o mostra sentado no trono entre Konstantinos Monomachus e a Imperatriz Zoé. O casal imperial carrega uma bolsa e um manuscrito representando sua doação à Hagia Sofia. Seus nomes estão marcados em inscrições próximas às cabeças. A Imperatriz Zoé, última representante da Dinastia da Macedônia (867-1056), não pôde continuar a linhagem e com a sua morte o período bizantino na Idade Média chegou ao fim. Embora esteja retratada no painel com seu último marido, Constantino IX, o fato das cabeças terem mudado ao longo do tempo sugere que o mosaico foi feito para uma das esposas anteriores do imperador.

O Mosaico Comneno retrata o Imperador II Ioannes Comnenos e sua esposa, Eirene, filha do rei Ladislau I da Hungria, e a Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços, entre eles. Estima-se que tenha sido feito entre 1122-1134. A Imperatriz mostra sua origem húngara com cabelos loiros e olhos claros. Ela usa vestes vermelhas, bordadas, inspiradas em motivos islâmicos e o imperador, um rico traje cerimonial adornado de joias.

Mosaico Deisis: Acredita-se que tenha sido feito durante os preparativos para celebrar o retorno à Ortodoxia, depois que a cidade foi retomada da ocupação latina. É considerado um dos mais belos exemplos da arte do mosaico bizantino e representa a oração ou súplica (deisis) da Virgem Maria e de João Batista pedindo a intercessão de Jesus Cristo pela humanidade. O painel reflete a intensa espiritualidade de Jesus, a inquietação de João Batista e a expressão dolorosa de uma mãe chorando pelo destino de seu filho.

Cristo Pantocrator

Nele Cristo constitui a parte central de uma oração, ladeado à direita, pela Mãe de Deus, e à esquerda, por João Batista, voltados para ele em atitude de súplica. O mosaico de 595 x 408 cm está muito danificado, mas o essencial da figura se salvou, um espetáculo histórico. Ele está enquadrado num espesso friso colorido e fica na arcada central da galeria do lado sul da catedral.

Saindo da Hagia Sofia ainda demos mais uma voltinha pela área externa.

Na volta pra Beyoglü, cansados, fizemos mais um lanchinho na rua e compramos nosso café da manhã do dia seguinte.

5º Dia

Balat (Fatih) e Gálata (Beyöglu)

Acordamos cedo e rumamos para o tradicional bairro de Balat, conhecido como o mais colorido de Istambul. Da estação Taksim fomos com a linha M2 do metrô até a estação Haliç que fica justamente na Ponte do Corno de Ouro, entre Fatih e Beyoğlu. De lá, pegamos o tram (bonde) para Balat (é a linha que vai até Fener).

Logo ao chegar já curtimos a atmosfera, nos embrenhando pelo emaranhado de ruazinhas estreitas ladeadas por cafés e lojas super coloridas. Passeamos muito por suas ladeiras, explorando o lugar que tem orgulho de seu time de 1931, o Haliç Spor Kulübü (que não está nem na 2a divisão!). Vibrante e com uma energia contagiante, o bairro é mesmo uma delícia!

Muito calor, resolvemos tomar um café gelado e descansar um pouquinho num dos vários cafés da redondeza, pra depois continuar explorando e encontramos o simpático Aras Café, na Vodina Cad. nº 186. O lugar tem uma decoração super descontraída e a atmosfera é bem gostosa.

Os Cafés de Balat são muito descolados. Tem até um dedicado aos gatos! O Café Naftalin K. Aliás os gatos dominam o cenário em Istambul, e em Balat eles estão por toda parte!

Apaixonada pelas cerejas e pelo suquinho… O bom da primavera é isso. Também tem pêssego, limonada e suco de laranja e romã em cada esquina… delicioso e baratinho! (São bem mais baratos que refrigerante.) Aliás, barracas de frutas tem em todo canto, assim como os “vitamin bars”, então os lanchinhos são sempre bem gostosos e saudáveis.

Além dos cafés, há vários restaurantes mais populares para se comer um bom köfte (rolinhos de carne moída, assados, parecidos com o Ćevapi que comemos na Bósnia).

Balat também tem padarias e os doces são deliciosos. Compramos sonhos creme (os chamados “berliners”) pra levar pro hotel e comer depois.

Já no fim do passeio sentamos pra comer uma baklava e tomar um cafezinho turco. Lá encontramos duas meninas ucranianas que falavam inglês e ficamos batendo um papo. Elas nos deram a dica de pedir um Uber na volta para economizar tempo. Até então a gente nem sabia que ele funcionava na Turquia. A corrida saiu apenas 23 reais de Balat até o hotel.

Dica: Uber realmente sai mais barato que táxi, até porque pegar táxi na rua é pedir pra ser “descascado”. Os taxistas turcos são famosos por “esquecer” de ligar o taxímetro.

Para ver antes de ir

Cinzas (Kül, 2024)

Gökçe é rica e casada há 10 anos com Kenan, dono de uma editora de sucesso. Ela é a 1ª a ler os manuscritos dos livros e decide sobre sua publicação. Ao ler um deles, fica fascinada pela figura misteriosa de Ali, um marceneiro de Balat, e resolve procurá-lo, pois crê que o livro não seja apenas ficção. Mas essa história a faz viver emoções que não sentia há muito tempo. Trama interessante que mescla romance, fantasia e tragédia na linha do clássico Anna Karenina. 

Gálata

O bairro de Gálata foi uma colônia da República de Gênova entre 1273 e 1453 e a famosa Torre de Gálata foi construída em 1348 na parte mais elevada da cidadela. Gálata, também era chamada de Pera pelos europeus até ao século XX.

Ao chegarmos formos direto para lá mas infelizmente ela estava fechada para restauração, então demos um bom passeio pelo bairro. Há muitas lojas de souvenirs e restaurantes com terraços de onde se pode ter uma vista privilegiada da Torre. Pena que são caríssimos!

A alternativa foi caminhar um pouco mais e comer um dôner. Pedi o de carne e o Ede foi no de frango. Acompanhado de um refresco, é barateza e bem gostoso!

Gálata e o Futebol

O time de futebol do bairro é o Galatasaray, fundando em 1905 e um dos mais importantes do país. Aliás, o futebol na Turquia é tão amado como no Brasil. O centro do bairro é a Praça Galatasaray onde fica o colégio que deu o nome ao bairro e ao time. 

Caminhando por Gálata, fomos para a estação Kabataş (que é a da Torre) e voltamos para a Avenida Ístiklal. Como era dia de jogo, Praça Taksim e a própria Istiklal Caddesi estavam fervendo de torcedores entoando o hino do time.

O Sorvete Turco

O sorvete turco não é como o nosso. Chamado “dondurma”, ele é feito com o mastique, uma goma obtida do lentisco, tradicional na Grécia e na Turquia. É a mesma utilizada para o doce “Delícia Turca”. É o mastique que deixa o sorvete “grudento”. Também utilizam o leite de cabra. Nós não gostamos, mas ele é famoso, principalmente entre as crianças e os turistas. Os vendedores costumam brincar e fazer malabarismos na hora de entregá-lo ao cliente.

O que a gente gosta mesmo são os deliciosos sorvetes de pistache! Foi o que mais tomamos nesse rolê.

6º Dia

Üsküdar e Pera (Beyöglu)

Üsküdar é um distrito histórico no lado asiático da cidade. Desde os tempos bizantinos, em que era conhecido como Chrysopolis, já era um assentamento estratégico otomano cheio de mesquitas, fontes e túmulos.

Além da herança cultural, o distrito é muito legal pra gente sentir como é a vida local, numa experiência bem mais autêntica, pois Üsküdar é realmente onde as pessoas moram e trabalham. É bem mais tranquilo que Beyoglü e Fatih. É que no geral os turistas que passam poucos dias na cidade concentram suas atividades nesses distritos.

Fomos para Üsküdar de ferry por apenas R$3,60 por pessoa! Como estávamos em Beyoglü, pegamos a balsa na estação de Sirkeci em Karaköy. A travessia dura só 15 minutos. Também dá para sair de Eminönü.

Conhecido por suas vistas panorâmicas do Bósforo, descemos na Praça Iskele (“do cais”) e passeamos bastante pelo calçadão ao longo da costa para ver mais de perto a Maiden Tower, a torre icônica de quase 2.400 anos e repleta de lendas que fica na ilhota na costa de Üsküdar. Lá há um café e um miradouro, mas o acesso é só de barco.

Voltando para a praça resolvemos nos embrenhar um pouco e procurar um restaurante bem local para almoçar. Notamos também que a arquitetura de Üsküdar é bem plana, com poucos edifícios altos e uma atmosfera tranquila de cotidiano de bairro. Mercadinhos, lojas familiares e lanchonetes ladeiam as ruas.

Almoçamos muito bem e baratinho no Öz Adana Kabap: pide, salada e carne com iogurte. E como de costume, ganhamos um chazinho.

Mas por ali também dá para comer lanches locais na rua. Assim como em Karaköy, além do simit tem barracas nas docas da balsa que vendem o balık ekmek (o sanduíche de peixe).

Como era de se esperar, outra grande atração do centro histórico de Üsküdar são as mesquitas. Passamos pela Şemsi Pasha Camii, a menor mesquita desenhada por pelo arquiteto imperial Mimar Sinan em Istambul.

Para ver antes de ir

Aşk Mantık İntikam (Esqueça-me se puder, 2021)

Amigos desde a infância, Esra Erten e Ozan Korfali casaram muito jovens e imaturos. Ela, batalhadora, prática e realista, e ele, inteligente, apaixonado e sonhador. Após o fracasso do relacionamento, se reencontram, e o que começa como um plano de vingança acaba se tornando uma segunda chance para o amor.  A novelinha é divertida e romântica e tem locações em Beyoğlu e Üsküdar.

Metrô embaixo d´água

Na volta pegamos o metrô na estação da Praça Usküdar e atravessamos o mar de Mármara. É isso mesmo, o metrô passa por baixo da água!


Pera

À tarde resolvemos voltar para em Beyöglu e ir ao bairro de Pera, para visitar o famoso Hotel Pera Palace, onde Agatha Christie se hospedou, ao escrever Assassinato no Expresso do Oriente.

O Pera Palace foi o primeiro hotel de luxo do Oriente e o primeiro a ter energia elétrica e um elevador. A construção começou em 1892 e ele foi inaugurado em 1895, a fim de receber os hóspedes vindos com o Expresso do Oriente, que partiu pela primeira vez de Paris em direção a Istambul em 1889.

O livro de Agatha Christie, publicado em 1934, foi baseado na experiência da escritora, em sua viagem de trem, e também em um caso de sequestro ocorrido em 1932. Ela hospedou-se no quarto 411.

O Hotel é ainda bem luxuoso! Há estantes com os livros em exposição logo na entrada e por 1.800 reais você pode reservar uma noite lá, que tal?! (está no Booking… fui ver só de farra!).

Como o acesso ao Salão Principal é reservado aos hóspedes, almoçamos baratinho em Usküdar pra poder dar uma de rico e tomar um café ali, na confeitaria do hotel. Comemos dois pedaços de torta e tomamos dois cafés pela bagatela de 825 liras (94 reais!).

Para ver antes de ir

Meia-Noite no Hotel Pera Palace (Pera Palasta, 2022) 

Esra, uma jovem jornalista louca por Ágatha Christie passa a noite no quarto em que a escritora se hospedou ao escrever Assassinato no Expresso do Oriente. Mas o cômodo não é um simples quarto e sim um portal para o passado. Sem querer Esra vai parar em 1919, em meio a uma conspiração que pode mudar a história da Independência da Turquia. A personagem é uma mistura divertida de detetive Hercule Poirot e Miss Marple e só se mete em confusões. O humor turco é bem inocente e a série é levinha. Ótima para ver o hotel por dentro!

O Çay é um estilo de vida!

Aí a gente via nas novelas todo mundo bebericando o seu çay a qualquer hora do dia, mesmo com um calor lá fora…. Acho que viramos turcos, pois, no fim do dia, já cansados de caminhar, tomamos apenas um chazinho. Mais que um símbolo de identidade, hospitalidade e interação social, ele aquece e hidrata o corpo e ainda ajuda a repor as energias!

E depois de 6 dias incríveis, em que pudemos desbravar a cidade com calma, demos uma última volta pelo nossa rua para nos despedir e nos preparar para seguir viagem, já planejando voltar!

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Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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