Buenos Artes

“O Belo fala por si mesmo. Ao darmo-nos conta, já estamos algo (ou totalmente) anestesiados ante ele. Porque é assim? De onde vem nossa suscetibilidade ao que chamamos Belo? Nessa experiência não existe racionalização, ela É.”

Buenos Aires é uma cidade muito expressiva no cenário artístico e cultural e tem diversos teatros, museus e galerias. Dois dos mais importantes museus da América Latina ficam lá: o Museu de Arte Latina (MALBA) e o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA). Um deles é pago e o outro, totalmente gratuito. Em nossa sexta visita à cidade resolvemos dedicar uma manhã e uma tarde para conferir os dois.

MALBA

O MALBA fica no bairro de Palermo, na Avenida Figueiroa Alcorta, 3415. Ele foi inaugurado em 2001 em um edifício moderno, especialmente construído para abrigar as coleções de arte latinoamericana que até então eram expostas em outros locais. Há uma coleção permanente de obras de artistas como a brasileira Tarsila do Amaral, Diego Rivera, Frida Kahlo e Di Cavalcanti. 

Chegamos um pouco cedo, então ficamos fazendo hora no Café ao lado. O lugar é caro, (R$32,64 por dois cafés com leite), mas tem mesinhas agradáveis. Já a entrada no museu custou 80 reais para duas pessoas.

Tarsila do Amaral

Desde o século XVI, a paisagem latinoamericana foi descrita por vários artistas exaltando sua flora, fauna e a diversidade de seus territórios. Representante dessa paisagem, o famoso quadro Apaporu, da Tarsila do Amaral, fica lá. Finalmente consegui vê-lo! (Em minha última visita ele estava emprestado).

Abaporu, 1928

Segundo Tarsila, Abaporu (que em tupi-guarani significa “homem que come homem”) sugeria “uma criatura fatalizada, amarrada à terra com seus pés enormes e pesados”.

A peça transformou-se num dos emblemas do movimento antropofágico, que defendia uma arte e uma literatura modernas e voltadas para a identidade brasileira. 

A Negra,1923

Tarsila não estava em São Paulo quando a Semana da Arte Moderna aconteceu lá em fevereiro de 1922; estava em Paris, estudando na tradicional Académie Julian e no estúdio de Émile Renard, amigo de Paul Gauguin. Quando retornou ao Brasil conheceu alguns dos artistas e intelectuais que participaram do evento e sua percepção da arte mudou drasticamente. 

Antropofagia, 1929

No MAC – Museu de Arte Contemporânea da USP Ibirapuera, em São Paulo, tínhamos visto A Negra, de 1923 . A pintura “Antropofagia”, de 1929, como indica o título, é uma assimilação as duas obras anteriores: figura e fundo de Abaporu e A Negra se mesclam.

No MALBA um painel com fotos e publicações da época contam um pouco da história de Tarsila.

Também é possível ver um exemplar de sua obra no Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão. Residência de inverno do governador, a construção remete a um palácio medieval e em seu interior há obras de artistas modernistas. Lá vimos o seu autorretrato. 

Autorretrato, 1924

Frida Khalo e Diego Rivera

Frida Kahlo nasceu na Cidade do México em 1907, mas gostava de dizer que havia nascido em 1910, ano da Revolução Mexicana, o que evidencia o impacto dessa transformação sociopolítica em seu ambiente. Sua vida foi marcada por tragédias pessoais, como a paralisia infantil e um grave acidente aos 18 anos, que a deixou com sequelas. Filha de um fotógrafo, começou a pintar jovem, depois de abandonar a faculdade de medicina.


Diego y yo, 1949

Diego Rivera nasceu em 1886 em Guanajuato, México. Desde 1907 estava na Europa, vivendo a vanguarda e o período cubista. Em 1920 foi chamado de volta ao México pelo Ministro da Educação, para trabalhar num programa educacional e artístico. Mas Rivera se juntou ao movimento revolucionário em 1922, pouco depois de se ter filiado ao Partido Comunista.

Retrato de Ramón Gómez de la Serna, 1915

Frida e Diego se conheceram em 1928 e um ano depois se casaram, iniciando um vínculo complexo na vida de ambos, o que influenciou fortemente o trabalho artístico de cada um.

Dica de filme: Frida (2002)

“Não estou pedindo para você me beijar, nem que me desculpe quando acho que você está errado. Nem mesmo vou pedir que você me abrace quando eu mais precisar. Não peço que me diga como sou bonita, mesmo que seja mentira, nem me escreva nada de bonito. Nem vou pedir que me ligue para me contar como foi o seu dia, nem que me diga que sente a minha falta. Não peço que me agradeça por tudo que faço por você, nem que se importe comigo quando a minha alma estiver deprimida e, claro, não vou pedir que você me apoie nas minhas decisões.

Não vou nem mesmo pedir que você me ouça quando tenho mil histórias para te contar. Não vou te pedir para fazer nada, nem mesmo para estar ao meu lado para sempre. Porque se eu tiver que te pedir, não quero mais.” (Frida Kahlo, para Diego) 

O filme conta a história da famosa pintora e sua conturbada relação com o marido. Com os astros Salma Hayek e Alfred Molina. Fotografia sensacional e ganhador do Oscar de melhor música. Vale a pena ver.

Jaider Esbell

Confesso que uma das obras que mais gostei em todo o MALBA foi a tela do Jaider Esbell, falecido artista de Roraima, indígena da etnia Makuxi.

Seu painel, sem título, pintado em 2021 (ano de sua morte) me transportou direto para dentro da música Beira Mar (minha preferida do Zé Ramalho). Foi bater os olhos no quadro e a música vir imediata e inteirinha na minha cabeça. (Nunca pensei que quadros poderiam ter trilha sonora!)

“Eu entendo a noite como um oceano que banha de sombras o mundo de sol. Aurora que luta por um arrebol de cores vibrantes e ar soberano. Um olho que mira nunca o engano durante o instante que vou contemplar…”

Jaider Esbell, Sem Título, 2021

“Nunca fiz curso de arte, nem estou a fim de fazer. Trabalho muito nesse campo do artivismo, na ideia de levar o movimento indígena de raiz, que luta desde o primeiro índio que flechou o navio de Cabral. É uma luta contínua por identidade e respeito. A gente sempre fez arte e não precisava do europeu para entender o sentido, a função dela. Arte pra nós é fundamental, é origem. Índio e arte nascem juntos. Não com esse nome, mas com todas as funções que a ideia de arte tem.”

Quem quiser ver a obra de Esbell pode também visitar a Pinacoteca de São Paulo. 

Feitiço para salvar a Raposa do Sol, 2019

Feitiço para salvar a Raposa Serra do Sol, de 2019,  está no grupo de primeiros trabalhos de artistas indígenas a integrar o acervo. Na obra, lado a lado, aparecem bichos reais e imaginários, vegetação e grafismos que remetem às pinturas corporais e ao artesanato do povo Makuxi. É uma homenagem à Raposa Serra do Sol, terra indígena onde o artista viveu até os 19 anos e que até hoje permanece sem demarcação.

Guillermo Kuitca

Outro artista que me surpreendeu foi  o argentino Guillermo Kuitca. Em 1982, ele pintou a série Nadie Olvida Nada, influenciado pelo turbulento contexto político e social da Argentina (guerra das Malvinas e os últimos anos da ditadura). Nela retrata dois elementos icônicos de sua obra: a cama, representada com traços simples, e a figura humana, presente em silhuetas de mulheres de costas, transmitindo uma sensação de vulnerabilidade e isolamento. 

Trabalha também o espaço teatral em obras impactantes, sempre retratando uma profunda dor e abandono. Não sou grande conhecedora de arte, mas suas telas realmente me tocaram por sua dramaticidade trágica. É gritante o desespero e a desolação. 


El Mar Dulce, 1987

Tres días (1986)
Tres días

Vaga idea de una Pasión, 1985

Kuitca cria desde criança, demonstrando um talento muito precoce. Aos seis anos inicia seu percurso por oficinas artísticas e aos 13, acompanhado por uma de suas professoras e pela família, decide fazer a primeira exposição individual. Já maduro, começa a produzir imagens que brincam com o espaço teatral.


Blaubart (Barba Azul), 1985


Sem título (Homenagem a Van Gogh, 1989)

La Chambre, Van Gogh, 1889

Em 1989, a Fundação Vincent van Gogh convidou Guillermo Kuitca para participar de uma homenagem ao centenário da morte do pintor holandês, celebrada em 1990. O evento reuniu grandes artistas de todo o mundo, que ofereceram uma perspectiva contemporânea sobre o legado de Van Gogh.

Kuitca criou um trabalho em diálogo com a emblemática pintura O Quarto. Em sua interpretação ele é amplo como um palco teatral, tem duas camas e numa delas alguém jaz.


Siete Últimas Canciones (1986)
Siete Últimas Canciones

Em “Sete Últimas Canções” Kuitca pinta, no centro de um quarto enorme, uma mulher que abraça a sombra de um homem. Nesse gesto, ela parece se agarrar a uma presença intangível buscando reter o que não pode tocar. Abaixo, a frase: “Eu minto mas minha voz não mente”, interrompida por um “K”, letra que Kuitca usou como assinatura em muitas de suas obras nos anos 80.

Em “O Beijo que me davas em Odessa” há um fim de festa, sabemos que algo já aconteceu e o resultado é perturbador. As cadeiras aparecem vazias, deitadas, as camas – lugar de abrigo e união – revelam um desamparo e a arquitetura, vazia. Lá, os protagonistas, foram abandonados.

El beso que me dabas en Odesa, 1984


El ejército del Ebro, 1985

Yo, como el ángel (1985)
Yo, como el ángel

Kuitca apresentou “Eu, como o Anjo”, uma obra queer, juntamente com as peças “Eu, como a Revolução Permanente”, “Eu, como Janeiro de 61” e “Eu, como uma Noite” na 18ª Bienal de São Paulo. A inspiração para a imagem foi uma fotografia da infância do artista.

“Quando eu criava essas cenas dentro de meus quadros, eu não desenvolvia primeiro uma cenografia e depois criava a cena; havia algo que se articulava de dentro.” (Kuitca)

Antonio Berni

Também há algumas obras do argentino Antonio Berni como a poderosa “Manifestación”, de 1934. Destaque para o punho levantado de um homem no centro e a mão cerrada de uma mulher no canto esquerdo inferior da pintura.

Manifestación, 1934

Berni começou sua carreira como surrealista, produzindo pinturas e colagens. Na década de 1930, voltou-se para o realismo crítico e social e se juntou a outros jovens artistas do movimento Novo Realismo, dedicado a destacar a luta de classes e a injustiça social na Argentina. 


La Mujer del Sweater Rojo, 1935
La Gran Tentación, 1962

La siesta y su sueño, 1932

Emiliano Di Cavalcanti

O modernista Di Cavalcanti (1897-1976) eu reconheci na hora, por suas cores e mulheres de formas arredondadas. Era o quadro “Mulheres com frutas”, de 1932. Os motivos do carioca também são facilmente reconhecidos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros, as rodas de samba e as festas populares. 

Mulheres com frutas, 1932

Eu os acho sempre lindos! Ainda lembro de outro que tive a oportunidade de ver ao vivo na Pinacoteca de São Paulo: “Bordel”, de 1940.

Bordel, 1940
Outros Artistas Latinos

Vários outros pintores também chamam atenção, como o haitiano André Normil (Puerto Principe, Haití, 1934-2019) e sua colorida tela de 1985. 

André Normil, Sin título, 1985

O boliviano Alejandro Mario Yllanes (1913 – 1961) com “Carnaval de Oruro”, de 1941. 

Wiraqucha Danzante, 1941

E o mexicano Roberto Montenegro (1885-1968) com L’épicerie du Bon Poète, de 1939.  

L’épicerie du bon poète, 1939

MNBA

Um verdadeiro presente para quem quer se conectar com as emoções que só a arte é capaz de despertar, o Museu Nacional de Belas Artes tem um acervo incrível.

Ele é o lar da arte clássica e abriga obras de mestres como El Greco, Paul Gauguin, Goya, Tintoretto, Édouard Manet, Degas, Velázquez, Rubens, Rodin e também grandes nomes da arte argentina, como Angel Della Valle, Ernesto de la Cárcova e Pío Collivadino.

Fica no tradicional bairro da Recoleta, na Av. del Libertador, 1473. A entrada é franca e fica aberto de terça a domingo até as 19:30, o que significa que é possível passear o dia todo e ainda fazer uma visita. Nos perdemos por lá, sem pressa.

Abaixo algumas das obras que mais me atraíram, quer seja pela importância histórica, ou pelo simples fato de me haverem despertado algum sentimento especial.

Jules Joseph Lefebvre (França, 1836-1911)

Diana Sorprendida, 1879

William Adolphe Bougereau (França 1825 – 1905)

El primer Duelo (Premier deuil), 1888

A pintura retrata Adão e Eva chorando a morte de Abel. O realismo das expressões, a dor silenciosa, a composição dramática. Um momento bíblico transformado em arte. Outra tela linda de Bougereau é “O Banho de Vênus”, de 1873.

El Baño de Venus, 1873

Jacopo Robusti – Tintoretto (Itália, 1518 – 1594)

Do famoso pintor renascentista Tintoretto vimos “A Natividade”, pintada no século XVI. No Palazzo Ducale, em Veneza, também tivemos a oportunidade de ver seu gigantesco mural “O Paraíso”.

Natividad, ca. 1585-1594

Francisco de Goya y Lucientes (Espanha, 1746 – 1828)

Goya é considerado o mais importante artista espanhol do final do século XVIII e começo do século XIX. Sua obra reflete a turbulência da época: a Inquisição (Goya foi fortemente atacado pela igreja, que o considerava herege) e as guerras, incluindo a iminente invasão da Espanha por Napoleão. 

Aparición de San Isidoro al Rey Fernando III
“El Santo”, ante los muros de Sevilla
Incendio de un Hospital, ca. 1808-12

A obra “Incêndio num Hospital” mostra um edifício semi-oculto pela fumaça. Goya esboça um grupo de figuras e destaca a de uma mulher deitada de bruços sobre uma maca transportada por dois homens. Predominam as cores escuras que criam uma atmosfera ameaçadora e contrastam com os vermelhos, amarelos e brancos.

Escena de Disciplinantes (1808-12)

Também vimos a perturbadora “Escena de Disciplinantes”, pintada entre 1808 e 1812 e “Fiesta Popular Bajo un Puente”.

Fiesta Popular Bajo un Puente

Suas pinturas, desenhos e gravuras refletiram transformações históricas e influenciaram vários pintores famosos, como Pablo Picasso.

No Museu do Prado, em Madri, pudemos ver o famoso e sombrio “Saturno Devorando seu Filho” (1820-23). A figura era uma alegoria do passar do tempo. O tema também está relacionado com a melancolia e esses traços estão presentes nas obras da série de pinturas negras de Goya.

Dica de Filme: Sombras de Goya (2007) 

Em 1792, o trabalho de Francisco Goya, o pintor Oficial da Corte Espanhola, perturba a Inquisição. Quando Inés, sua musa, é presa pela Igreja acusada de heresia, seu pai pede ajuda a Goya para libertá-la. O artista então recorre ao irmão Lorenzo Casamares, encarregado do Santo Ofício, por quem foi contratado para um retrato. Além de abordar a vida do pintor, o filme com Javier Bardem, Natalie Portman e Stellan Skarsgärd mostra bem o turbulento contexto da época.

Francisco de Zurbarán (Espanha, 1598 – 1664)

Zurbarán era um seguidor de Caravaggio e essa obra remete ao mestre italiano. A figura isolada do santo ajoelhado ocupa quase toda a tela e se destaca no fundo escuro pela luz que cai sobre ela. Ele veste o hábito capuchinho e o cordão com nó triplo, símbolo dos votos franciscanos de pobreza, obediência e castidade. A inclinação do corpo e as sombras sobre o rosto aludem à brevidade da vida.

Monje Meditando, 1632

Bartholomaeus de Bruyn (Alemanha, 1493 – 1555)

Ele pintou retábulos e foi o principal pintor de retratos de Colônia em sua época.

Adoración de los Reyes Magos, s. XVI

Pieter Paul Rubens (Alemanha, 1577-1640)

Se tem anjinhos ou bebês bem gordinhos é Rubens! Um dos maiores pintores do Barroco, era conhecido por suas pinturas sacras em estilo colorido vibrante e dramático.

Sagrada Familia, c. 1630

Angel Della Valle (Argentina, 1852-1903)

Esse quadro eu achei realmente fantástico. Ele retrata um ataque indígena seguido da fuga com prisioneiros e os bens saqueados. Parece uma cena de filme!

La Vuelta del Malón, 1892

Malón é o nome dado aos ataques de pilhagem dos guerreiros Mapuches, que cavalgavam por terras argentinas dos séculos XVII ao XIX. Os Mapuches consideravam o malón um meio de obter justiça. A composição é intensa e nos faz refletir sobre como o imaginário popular e a arte representavam os povos originários.

La vuelta del Malón

Ernesto de la Cárcova (Argentina, 1867-1927)

Sin pan y sin trabajo, 1894

Sem pão e sem trabalho, de 1894, é o primeiro quadro de tema operário com intenção de crítica social na arte argentina e desde sua exibição tornou-se uma peça emblemática da arte nacional.

Sin pan y sin trabajo

Seu estilo naturalista apresenta uma característica importante dos salões europeus no final do século XIX: grandes pinturas em tons sombrios que mostravam cenas dramáticas de miséria e conflitos sociais urbanos.

Foi a obra com a qual De la Cárcova se apresentou ao retornar a Buenos Aires, depois de se ter filiado ao recém-criado Centro Operário Socialista (antecedente imediato do Partido Socialista, fundado dois anos depois). Ela é realmente muito impactante.

Pío Collivadino (Argentina, 1869-1945)

Ora di Pranzo, 1903

Em La Hora del Almuerzo, de 1903, vemos sete trabalhadores almoçando. Alguns distraídos, outros conversando e rindo, um deles fuma um cachimbo. Com pinceladas soltas e toques de luz brilhante a tela mostra um grupo de pessoas comuns, de diferentes idades e fisionomias. Trata-se de outro quadro de tema operário, embora quase não remeta à miséria ou à luta de classes.

Victor Gabriel Gilbert (França, 1847-1933)

Paysanne Arrosant (Aldeana Regando)

Edgar Degas (França, 1834-1917)

Se tem bailarinas é um Degas! Isso eu lembro, pois tivemos a oportunidade de ver algumas obras dele e suas pinceladas livres, de tons pastéis, capturando o movimento.

Deux danseuses jaunes et roses (Amarillo y rosa), 1898

“Bailarinas em Verde” de 1877-79, nós vimos no Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, em Madri.

Degas era apaixonado pela figura das bailarinas e passava horas observando os ensaios na Ópera Garnier, em Paris. Mas, ao contrário do que se pensa, no século XIX a profissão não era glamurosa. Ela era exercida por mulheres pobres que começavam a treinar desde meninas para, no futuro, sustentarem suas famílias. Garotas ricas não trabalhavam fora. Ser bailarina era considerado apenas um pouco melhor que ser lavadeira ou prostituta. A magreza das jovens também era muito mais por desnutrição que elegância. Elas eram inclusive chamadas de “petit rats” (ratinhas). É importante lembrar que nessa época pintavam-se mulheres sempre gordinhas, um símbolo de riqueza. Neste sentido, Degas retratava a marginalidade e não a burguesia da qual ele próprio fazia parte.

Édouard Manet, (França, 1832-1883)

Manet foi um dos mais importantes representantes do impressionismo francês, embora alguns de seus quadros tenham características realistas. Seus nus escandalizaram Paris em 1862-63.

La Ninfa Sorprendida, 1861

Berthe Marie Pauline Morisot (1841-1895)

Única mulher a mulher a integrar a coleção da sala, Berthe Marie Pauline Morisot chama a atenção com a tela La Coiffure (O Penteado), de 1894.

La Coiffure, 1894

Paul Gauguin (França, 1848-1903)

Em 1º de abril de 1891 o pintor Paul Gauguin, então com 43 anos, parte de Marselha para o Taiti. Lá ele decide se exilar para reencontrar sua arte, de maneira livre e selvagem. Gauguin enfrenta a selva, a solidão, a pobreza e a doença, mas também conhece Tehura, o tema de seus quadros mais famosos.

A tela “Mulher do Mar” nos transporta direto para o Taiti, com suas cores vibrantes e atmosfera contemplativa.

Vahine no te miti, Mujer del mar, 1892

Dica de filme: Gauguin: Viagem ao Taiti (2018)

França, 1891. O pintor Paul Gauguin já é bem conhecido nos círculos artísticos parisienses. Entretanto, angustiado e cansado do ambiente sufocante da Europa e de suas convenções políticas, morais e artísticas, ele já não encontra nenhum rosto ou paisagem que o inspire. Consumido pelo desejo de encontrar a pureza original e pronto para sacrificar tudo, ele deixa a esposa e os 5 filhos para trás e se aventura sozinho do outro lado do mundo. Empobrecido e solitário, Gauguin entra profundamente na selva taitiana, onde conhece os Maoris e Tehura, a musa que inspirará suas obras mais icônicas.

Ignacio Zuloaga y Zabaleta (Espanha, 1870-1945)

“Las brujas de San Millán” é uma obra realista pintada em 1907 por Zuloaga em Segóvia e reflete a chamada Espanha Negra. Vemos seis mulheres idosas, a paisagem escura atrás é quase invisível, apesar disso os rostos estão iluminados, destacando-se sobre as roupas. Apenas a velha de cabelos brancos, bem no centro, quebra a intimidade da cena ao olhar direto para o espectador.

Las Brujas de San Millán, 1907

Jean-Joseph Benjamin Constant (França, 1845-1902)

Benjamin Constant é famoso por seus retratos orientais. Em 1887 pintou a “A Imperatriz Teodora”, esposa do imperador bizantino Justiniano I.

La Emperatriz Theodora, 1887
Teodora

Teodora foi uma figura de grande importância na história de Constantinopla, não apenas por ser imperatriz, mas por sua influência política e social. 

Considerada santa pela Igreja Ortodoxa, sob seu reinado foram construídas a famosa Basílica de Santa Sofia (no ano 532) e as grandes Cisternas, as quais que tivemos a oportunidade de conhecer em Istambul.

Diego Velásquez (1599-1660)

Se as pessoas são feias, mas as roupas são lindas e eles são membros da realeza espanhola, é Velazquez! O Pintor tornou-se o favorito do Rei Filipe IV. No MNBA está o quadro “A Infanta Maria Teresa”, filha de Filipe.

Infanta Maria Teresa, século XVII

Sua obra mais famosa é “As Meninas”, em que o próprio Velásquez se insere na imagem. Nós o vimos no Museu do Prado.

El Greco – Domenikos Theotocopoulos (Grécia, 1540/50-1614)

Se todo mundo é magro, tem barba pontuda e cara assustada ou melancólica, é El Greco! O pintor é facilmente reconhecido por suas figuras de rostos finos e seu jogo de luz que cria uma atmosfera irreal. Na pintura do MNBA, El Greco trata de um episódio da Paixão de Cristo: a oração de Jesus no Monte das Oliveiras, antes da prisão e da crucificação.

Além dessa e das do Museu do Prado, também tivemos a oportunidade de ver sua obra na Catedral de Toledo, na Espanha, onde viveu e trabalhou até sua morte.

El Expolio (El Greco, Toledo)
El Expolio

Louis-Ernest Barrias (França , 1841 – 1905)

Les premières funérailles
(Los primeros funerales), ca. 1878

René François Auguste Rodin (França, 1840 – 1917)

Rodin, considerado o pai da escultura moderna, criou algumas das esculturas mais icônicas do mundo, incluindo “O Pensador” e “O Beijo”.

La Tierra y la Luna (1901-1904)

Na década de 1880 Rodin criou mais de 200 figuras inspiradas na Divina Comédia, de Dante Alighieri, para seu projeto “A Porta do Inferno”. Originalmente, “O Beijo” fazia parte desse conjunto. Trata-se de um casal, Paolo e Francesca, que representam o amor proibido: cunhados se apaixonaram lendo histórias de amor. Rodin os retratou nus, despojados de toda identidade.

O Beijo

“O Gênio da Guerra” é uma obra apresentada para um concurso para um memorial da defesa de Paris durante a Guerra Franco-Prussiana em 1878. A escultura foi rejeitada na época por representar a guerra com grande violência e tensão, mostrando um guerreiro ferido e uma figura feminina alegórica em um gesto de gritar.

El Genio de la Guerra, 1878 

Autodidata, Rodin começou a desenhar aos 10 anos e revolucionou a escultura ao focar na individualidade e fisicalidade do corpo humano. Muitas de suas esculturas mais notáveis foram duramente criticadas durante sua vida, mas ele sempre se recusou a mudar seus estilo.

Em Paris, no Museu Rodin, também vimos a famosa escultura “O Pensador”, de 1904. Ela retrata um homem em profunda meditação, como que lutando com uma poderosa força interna.

A arte é um reflexo da época e do contexto em que foi criada. Por isso, aprender sobre arte é aprender sobre a história do pensamento humano. E depois de tanta beleza e aprendizado, voltamos pra casa mais ricos. Afinal, cultura não se compra, se vive!

Veja também os posts sobre o que fazer em Buenos Aires, o bate e volta a Tigre, no delta do Rio Paraná e nossa aventura pela Quebrada de Humahuaca, no norte da Argentina:

Buenos Aires X 5

Tigre, Argentina

Quebrada de Humahuaca

O “desenterro” do Carnaval

Tumbaya e Salinas Grandes

Argentina no Cinema

Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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