Nossa 4ª cidade na Turquia foi a pequena Selçuk, na Anatólia. Fomos para lá de taxi, saindo de Izmir às 13:15. São apenas 80 km e a viajem é bem rápida (cerca de 40min). É possível ir de ônibus (bem mais barato), mas como amanheceu chovendo bastante achamos que não valia a pena o empenho. Nossa alegria foi que ao chegar o tempo estava abrindo e o sol deu as caras!













Um pouco de história
Próxima ao litoral do mar Jônico, que na época era dominado pelos gregos, Selçuk foi onde eles construíram uma das sete maravilhas do mundo antigo: o Templo de Artemis.

No ano de 129 a.C. os romanos tomaram a região e a cidade floresceu. A antiga cidade de Agios Theologos foi então renomeada “Ayasuluk” pelos turcos e tornou-se Selçuk em 1950. No período bizantino os cristãos acreditavam que ali teria sido enterrado o Apóstolo João Evangelista (o Grande Teólogo), daí o antigo nome.

A cidade é um oásis de tranquilidade para quem já está cansado do agito. Ali o ritmo é mais lento. A apenas 2 km ficam as famosas Ruínas de Éfeso, que pretendíamos conhecer no dia seguinte. Ela também é a base para quem quer visitar a Casa da Virgem Maria, além do típico Vilarejo de Şirince (o que também fizemos). Foi uma ótima opção porque foi a cidade com a hospedagem mais barata que conseguimos na Turquia. Então, se estiver considerando fazer esse rolê, recomendamos muito.
Boomerang Guest House
Nos hospedamos no Boomerang Guest House, na Atattürk Mah, 107 Sok #10. A localização é ótima, grudada ao centro.










A propriedade é uma casona grande, bem tradicional, com um pátio delicioso e um jardim onde podíamos tomar café da manhã ao ar livre. Muito aconchegante e com um arzinho de casa da vovó. Gostamos logo de cara!

O dono era o Sr. Hamdullah Çagiran. Ele e a esposa tocam o hostel e era ela quem preparava nosso café da manhã e quem nos fez uma ótima salada com pão pita, húmus e coalhada seca para matarmos a fome assim que chegamos.





No café da manhã havia café com leite (oh glória!), pão, ovos e frios. O lugar é também um pequeno restaurante aberto ao público, assim, jantamos lá em nossa primeira noite: uma ótima sopa de legumes e sigara böreği (rolinhos primavera recheados com queijo).



O quarto era bem agradável e o banheiro grande. Contíguo ao quarto também havia um pequeno jardim de inverno com cadeiras que podíamos usar. Pagamos 4.000 liras por 3 noites (cerca de 546 reais).
O que fazer na cidade?
Quando a escolhemos não sabíamos que em Selçuk também havia várias coisas interessantes para ver como um Castelo, ruínas de um Aqueduto Romano e o mítico Templo de Artemis, além do Museu Arqueológico de Éfeso, que é para onde os artefatos descobertos no complexo foram levados.








O Sr Hamdullah falava um pouco de inglês e conseguimos conversar bastante. Ele nos mostrou um mapa e como ainda não era tão tarde, depois de comer, resolvemos ir direto ao Museu que ficava a menos de uma quadra dali e fechava às 17:00. Também combinamos com ele o passeio em Éfeso para o dia seguinte.
Museu de Éfeso
As escavações de Éfeso duraram mais de um século e os itens encontrados entre 1867 e 1905 foram mandados para o British Museum em Londres. (Vimos alguns deles quando o visitamos, como uma das colunas de mármore do Templo de Artemis.) Mais tarde, entre 1905-1923, os achados foram enviados para a Áustria, onde estão expostos no Museu de Éfeso, em Viena (que infelizmente não tivemos tempo de visitar quando fomos).
Assim, as coleções não estão completas. Entretanto, desde 1929 os demais artefatos foram reunidos no Museu Arqueológico de Éfeso, onde são exibidos em 7 salas de acordo com os locais onde foram encontrados.

O museu não é grande, mas tem instalações modernas. Na fachada, uma cariátide contrasta com a porta automática de metal e vidro. Dentro, detectores de metal evidenciam o valor inestimável das peças. A entrada custou 824 liras para os dois (cerca de 124 reais), mas valeu muito a pena!


Pudemos ver ornamentos das várias fontes de Éfeso e bustos de quase 2 mil anos de imperadores como Marco Aurélio, Augusto, Domiciano e Comodus (sim, aquele mesmo interpretado por Joaquin Phoenix no filme “Gladiador”). Segundo historiadores, Comodus realmente participava de lutas de gladiadores, quase sempre contra oponentes fracos, os quais poderia derrotar facilmente. Ele foi inclusive assassinado por seu próprio treinador, Narciso. Não se parecem muito, não é?




Também vimos bustos do filósofo Sócrates e do rei Lisímaco.


Salão das Fontes
Nesta sala, há itens encontrados perto das fontes monumentais de Éfeso. Os principais conjuntos da exposição estão relacionados ao Monumento Polio, à Fonte de Domiciano, ao Ninfeu de Trajano e à Fonte de Laecanius Bassus. São várias e incríveis estátuas de divindades como Zeus, Afrodite, Dionísio, Eros e Esculápio, além de Sátiros, Tritões e vários relevos.

Dionísio



Zeus




Afrodite


Sátiros e Tritões


Mármores Polifemos

Os artefatos Polifemos mostram trechos da Odisseia de Homero. Na mitologia grega, Polifemo era um gigante de um olho só, filho de Poseidon. Diz a lenda que Odisseu, o herói da Guerra de Tróia, desembarcou na ilha de Polifemo em sua viagem para casa. Com alguns de seus homens, ele entrou na caverna do ciclope, que logo voltou para casa com seu rebanho. O gigante então bloqueou a entrada com uma grande pedra e comeu dois dos homens. Na manhã seguinte, comeu mais dois e saiu para pastorar suas ovelhas. Quando retornou, à noite, devorou mais dois marinheiros. Odisseu então ofereceu a Polifemo um vinho forte. O gigante perguntou seu nome e ele respondeu “Ninguém”. O cíclope então caiu no sono, bêbado. Enquanto isso, Odisseu fez uma estaca de madeira e a fincou no único olho de Polifemo. De manhã, cego, ele deixou suas ovelhas saírem para pastar. Odisseu e seus homens então amarraram-se aos animais e escaparam. Questionado pelos deuses sobre quem o havia cegado, Polifemo disse: Ninguém. E assim Odisseu não foi punido por Poseidon.

Esses mármores decoravam, originalmente, o Templo de Ísis em Éfeso e depois foram trasladados para a Fonte de Domiciano.

Monumento Parta
Os relevos desta estrutura monumental foram encontrados em frente à Biblioteca de Celso. Há várias hipóteses, mas a mais provável é de que era um enorme altar – semelhante ao Altar de Zeus em Pérgamo. Eles mostram as cenas das guerras travadas com os partas pelos imperadores Marco Aurélio e Lucius Verus. São relevos incríveis.

Templo de Adriano
Há também um impressionante friso de mármore do Templo de Adriano com 4 cenas. O primeiro relevo recria o mito da fundação de Éfeso. Ele mostra 5 figuras: uma divindade masculina, possivelmente Zeus, uma figura feminina segurando um vaso – a personificação da fonte de Hypelaios, um guerreiro anônimo e Androclos, o mítico príncipe de Atenas, a cavalo, lutando com um javali. Abaixo do animal, um guerreiro caído.



Reza a lenda que no século 11 a.C., antes de partir para estabelecer um novo assentamento na Ásia Menor, Androclos consultou o Oráculo de Delfos, que lhe deu o conselho enigmático de que um peixe e um javali lhe mostrariam o local. Um dia, enquanto ele e seus companheiros preparavam peixes numa fogueira, um deles pulou da panela, arremessando brasas nos arbustos. Um javali selvagem, assustado, saiu correndo e foi morto por Androclos. Reconhecendo isso como o cumprimento da profecia do oráculo, o príncipe construiu sua nova cidade exatamente naquele local, próximo às encostas do Monte Koressos.

Vimos ainda várias urnas funerárias no Lapidário e impressionantes peças em bronze, como uma estatueta egípcia, o que só tínhamos visto no British Museum, em Londres.





Foi ótimo visitar o museu antes de ir a Éfeso porque só sabíamos sobre sua magnífica biblioteca e ali tivemos uma ideia da disposição dos demais templos e edifícios cívicos e sua importância. Também estava lá a icônica estátua da deusa Artemis (cuja réplica também pode ser vista no Centro da Cidade).
Artemision
Uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Templo de Artemis (o Artemision) ficava em Selçuk. Ele foi erguido pelo Rei Creso em meados do século VI a.C. Creso foi o último monarca da Lídia, um reino próspero da Anatólia, conhecido por sua imensa riqueza e por ter cunhado as primeiras moedas de ouro do mundo. Aprendemos sobre ele quando visitamos Delfos, na Grécia.

O templo de 115 x 55m era todo em mármore e tinha 127 colunas jônicas de 18m de altura. Além dos seus propósitos religiosos, o Artemision era um ímã que atraia turistas, comerciantes e até reis, que faziam homenagens à deusa oferecendo joias e tesouros. Ele servia também como uma espécie de refúgio para os perseguidos, pois ninguém se atreveria a fazer algo que profanasse o templo.


Ele foi incendiado em 356 a.C. na noite em que Alexandre Magno da Macedônia, nasceu. Segundo fontes antigas, Herostratos, um homem que queria imortalizar seu nome, foi quem pôs fogo no templo. Numa só noite, tudo o que existia de madeira – o teto, as escadarias, as portas, os móveis e a própria imagem de Ártemis – ardeu nas chamas. O que restou do templo que havia sido o mais magnífico da Grécia foram só colunas esfumaçadas, enegrecidas e arruinadas.

Abandonado, seus elementos arquitetônicos foram reutilizados na construção da Basílica de São João e da Mesquita Isa Bey em Selçuk. As ruínas do templo foram descobertas em 1869 pelo engenheiro ferroviário inglês J. T. Wood após uma busca de sete anos. Hoje apenas uma das colunas está em pé.


No Museu Arqueológico de Éfeso vimos uma linda maquete do Artemision. Já na ruínas do complexo, no dia seguinte, conhecemos sua história no Ephesus Experience Museum. O templo era realmente impressionante!
A Deusa Artemis Efésia
Na Mitologia Grega, Artemis é a filha de Zeus e Leto, e irmã de Apolo. É a deusa mãe da natureza, fertilidade e da vida selvagem. Também era chamada de Cybele na Ásia Menor e Diana no período romano.

Protetora da cidade, em Éfeso a deusa era representada com “vários seios”, um símbolo de fertilidade e abundância. Uma das três estátuas de culto foi encontrada durante a escavação do Prytaneion (Prefeitura), nas ruínas da cidade antiga, em 18 de Setembro de 1956. A original é da era romana (século 2 d.C.) e agora está no Museu Arqueológico (onde a vimos ao vivo e em cores!).




A Deusa está em todo canto! Há uma grande estátua dela no centro da cidade, além de menções, relevos e imagens em lojas e até em muros. Descobrimos ainda restaurantes e lanchonetes chamados Artemis.




Centro de Selçuk
A região central é fácil de se percorrer a pé, com ruas tranquilas para pedestres. Dá para caminhar devagar, descobrindo ruínas e a vida local.







Saindo do museu, ainda bem calor, descemos um pouquinho fomos dar um rolê na rua principal, a Atatürk Caddesi, e tomar um sorvete de pistache – nosso preferido! Compramos logo na esquina, na lanchonete Iskender e fomos caminhando pela avenida, que é ladeada pelo Parque Ahmet Ferahli.


Uma das atrações da avenida é a Ishak Bey Cami, uma pequena e antiga mesquita.



Ahmet Ferahli Park
Poucos metros abaixo do nosso hostel ficava o Parque Ahmet Ferahli, um lugar delicioso, arborizado e com várias mesas e bancos para sentar e descansar. Como era sábado compramos morangos e cerejas na feira e ficamos ali, comendo e curtindo a atmosfera tranquila do lugar.




Aliás a feira de sábado em Selçuk é muito popular e definitivamente vale a visita. Tem uma mistura de frutas e verduras, cerais, flores, roupas e artigos domésticos.






Aqueduto Bizantino
Terceiro dia, saímos cedo e fomos explorar um pouco mais. O Aqueduto Bizantino de Selçuk abastecia o assentamento que existia ali. Ele ia do vale de Şirince, no norte, atravessava o centro da cidade e desembocava próximo do Portão da Perseguição de Ayasoluk. Destruído por terremotos e pela ação do tempo, alguns dos pilares de 15 metros que apoiavam os arcos de tijolos foram remontados, usando elementos arquitetônicos antigos. Há também lindas colunas coríntias originais.











Próximo às ruínas do Aqueduto há um mural com uma réplica do friso do Templo de Adriano que reconta o mito da fundação de Éfeso pelo príncipe Androclos.

Selçuk Efes Kent Bellegi
A Turquia é um pais muito preocupado com a restauração e recuperação da memória histórica e o Selçuk Efes Kent Bellegi é um grande edifício com fotos e exposições sobre a evolução dos povos de Éfeso. A entrada é 6 euros. Como já tínhamos visitado o museu arqueológico, não entramos.



Portão da Perseguição
Sob o domínio romano o local onde hoje está o Castelo de Ayasoluk era usado como necrópole. Os bizantinos o cercaram com um muro e esse portão é a entrada mais intacta. Ele tem torres em ambos os lados e um arco no centro, onde havia relevos de Eros e de cenas do julgamento de Hector e Aquiles, os heróis da Guerra de Tróia, relatada na Ilíada de Homero.


Mais tarde, viajantes europeus que viram os relevos acreditaram tratar-se da perseguição que São Paulo sofreu em Éfeso, chamando a entrada de “Portão da Perseguição”. Havia ainda outros afrescos na parte superior, possivelmente representações de profetas, mas eles foram desgastados pelo tempo.


No Castelo havia um hammam (banho turco), várias cisternas e uma mesquita com um mihrab (nicho de oração voltado para Meca). O local foi mencionado pelo viajante britânico John Covell ainda em 1670. As escavações ali duraram vários anos e os relevos foram retirados e levados para a Inglaterra em 1812 e exibidos na Woburn Abbey Gallery.


Não tínhamos tempo para fazer a visita completa, mas sabemos que o ingresso do Castelo dava direito à Basílica de São João, outrora a estrutura principal da cidadela, a 350m do Castelo.
De acordo com o historiador Eusébio, ao ser expulso de Jerusalém o Apóstolo João Evangelista (o Grande Teólogo) também viveu em Eféso, entre os anos 37 e 42, e ali escreveu partes do livro de Apocalipse da Bíblia. João teria sido enterrado justamente ali, na cidadela. Assim, no século XI, Justiniano e sua esposa Teodora (os mesmos que ergueram a 3ª Hagia Sofia em Istambul) mandaram construir a Basílica.
«…O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas: a Éfeso, a Esmirna, a Pérgamo, a Tiatira, a Sárdos, a Filadélfia e a Laodiceia.» (Apocalipse 1:11)

Okumus Mercan Restaurant
Em nossa última noite na cidade atravessamos a Atatürk Caddesi e seguimos pela Cengiz Topel, uma rua com muitos restaurantes. Optamos pelo Okumus Mercan Restaurant, um lugar bem simpático, familiar e com forno à lenha. O garçon falava inglês e foi muito atencioso. Pedimos “ezogelin çorbasi” (sopinha de lentilha) e um “pide” (esse pão sírio com carne moída temperada e queijo). Já tínhamos provado os dois em Istambul e adoramos! E, como de praxe, ao pedirmos também 4 pedaços de baklava (nosso doce preferido), ganhamos um chazinho!







Selçuk é muito segura e gostosa para se passear a noite. Calor, havia muita gente nos restaurantes e no Parque Ahmet Ferahli, embora, por ser uma cidade pequena, o agito não fosse até tarde.




Dia seguinte, logo cedo tomamos café e saímos com o Sr Hamdullah para as ruínas de Éfeso. Contamos como foi esse passeio inesquecível no post: Roteiro em Éfeso: descubra as ruínas.

O mundo é grande, com culturas diversas. Ouvir sobre elas é muito diferente de vê-las em ação e, mesmo por pouco tempo, participar delas. Viajar é isso!
Veja também:
Da Piscina de Cleópatra à Boca do Inferno
Kuşadası – a Ilha dos Pássaros
Roteiro em Éfeso: descubra as ruínas