O Mítico Reino de Pérgamo

A mim me importa CONHECER… Esta é a minha ambição… O TER é um caminho e não um fim. Não quero grandes posses… Quero grandes experiências, grandes papos com gente inteligente, paisagens diferentes, ver coisas surpreendentes e muitas, muitas boas lembranças… como esta!

O período helenístico foi uma época em que a cultura grega se estendeu por todo o império de Alexandre – o Grande, da Macedônia. Pérgamo é uma antiga cidade na Turquia que foi capital do reino durante essa era, que durou de 323 a.C. até a conquista romana no ano 30 a.C. Considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO, ela também é mencionada na bíblia, em Apocalipse, como uma das sete igrejas da Ásia.

A cidade atual é chamada de Bérgama pelos turcos e fica na planície de Bakırçay, onde a colônia romana se estabeleceu e expandiu. Já no topo do morro, ficava a antiga cidade grega, que manteve seu nome histórico: Pérgamo.

8:40 da manhã saímos do Oglakcioglu Park Hotel, em Izmir, com o Sr. Metin, um motorista que contratamos no hotel para nos levar aos sites arqueológicos que queríamos visitar. Ele não falava inglês, mas com o Google Translator a gente ia se virando. O passeio durou até as 16:00 e dividimos nosso rolê em 4 momentos:

1ª Kizl Avlu – Basílica Vermelha e Ruínas Egípcias

2ª Acrópole – Templo de Trajano, Altar de Zeus e Teatro

3ª Centro de Bergama – Almoço

4ª Santuário de Esculápio – Caminho Sagrado, Templo e Biblioteca

Ruínas Egípcias

Os achados arqueológicos em Pérgamo nos dão uma ideia de como foram formados os reinos helenísticos (metrópoles gregas fora da Grécia) no início do século II a.C. Nessa época havia uma grande variedade de cultos e a expansão do império favorecia o sincretismo religioso, ou seja, a fusão de elementos de diferentes religiões em uma nova crença.

“Kızıl Avlu” significa a “Basílica Vermelha” ou “Pátio Vermelho” em turco. Construída pelo imperador Adriano, ela fica a cerca de 1km abaixo da Acrópole de Pérgamo. Essa foi nossa primeira parada. A entrada custa três euros por pessoa (cerca de 13 reais).

O complexo é impressionante, com um grande edifício e torres de tijolos vermelhos, daí o nome dado pelos locais. A entrada era por um propileu onde havia uma gigantesca porta de bronze. No período bizantino o prédio foi convertido numa das primeiras igrejas cristãs do mundo. Apesar da destruição, ainda dá para distinguir parte do piso de mármore, a bacia batismal e o pódio da estátua de culto.

Mısır Tannlan Tapinaõi

Logo depois entramos no pátio do Salão Vermelho, que era cercado por grandes colunas em forma de estátuas que sustentavam o telhado. O estilo egípcio indica que o Salão era um templo dedicado aos deuses Ísis, Serápis e Hórus. Também havia pátios e piscinas usadas para banhos e rituais. O rio Selinus passa por um túnel sob o pátio do templo, mas hoje em dia grande parte está escondida sob as casas da moderna Bergama.

Deusa Sekhmet

Uma das estátuas do Salão Vermelho, de 8,5m de altura, foi restaurada e recolocada no altar. Ela representa Sekhmet, a deusa egípcia de cabeça de leão. Uma curiosidade é que na base há uma fenda por onde um sacerdote entrava e “fazia a Deusa falar”. Vê-la em seu contexto arquitetônico dá uma ideia da grandeza do local, que era todo coberto de mármore vindo do Egito. Os fragmentos foram descobertos nas escavações da década de 1930.

Os gregos tinham pouco respeito por figuras com cabeças de animais, por isso, com o tempo, as divindades egípcias foram humanizadas. Serápis é a versão antropomórfica de Osíris, o deus dos mortos, do julgamento e do além. Isis era cultuada como mãe, esposa e protetora, associada à magia e ao poder. Já Hórus foi adaptado como Harpócrates, o deus do silêncio e do segredo. E assim eles continuaram a ser venerados ali.

Acrópole de Pérgamo

Em uma montanha íngreme, naturalmente fortificada e com vista para uma planície fértil, era uma vez a Acrópole de um reino próspero, centro de cultura e poder, um reino que aspirava replicar a Grécia clássica. O rei sonhava recriar a glória de Atenas nas alturas de Pérgamo. E essa foi nossa 2ª parada!

Uma das maravilhas do mundo antigo, na Acrópole ficavam o lendário Altar de Zeus e o teatro mais inclinado da época clássica. O local tornou-se também um centro de aprendizado com uma vasta biblioteca, rivalizando até mesmo com a de Alexandria. Compramos as entradas na hora mesmo – 1.051,80 liras para os dois (120 reais) – e lá fomos nós explorar tudo por conta própria!

Os edifícios eram divididos em setores, indicando para que eram usados: religiosos, educacionais, culturais ou administrativos. Esse layout tão organizado era reflexo de programas de construção bem planejados, como os da Grécia, apesar do regime diferente (era uma monarquia e não uma república). O rei era o patrono da cidade, protetor do povo, defensor da cultura e da educação, da ciência, das artes e do atletismo. A Acrópole representava, portanto, a autoridade do soberano.

Santuário de Trajano

Construído no século II depois de Cristo, já na era romana, ele foi dedicado ao Imperador Trajano e, mais tarde, a Adriano. As ruínas mostram que ali havia um complexo erguido sobre um enorme terraço artificial, o que revela como a engenharia romana se adaptava a terrenos inóspitos. A posição do templo oferecia vistas deslumbrantes da paisagem, além de evidenciar a devoção religiosa dos cidadãos de Pérgamo. Percorremos o labirinto de arcos sem pressa.

Templo de Trajano

Em 114 d.C. Trajano concedeu a Pérgamo um 2º templo, que foi dedicado a Zeus Philios e é chamado de Trajaneum. O nome Philios (amigável) indica a benção do deus e a amizade entre Roma e as cidades gregas da Ásia, como Pérgamo.

O Trajaneum é a única construção genuinamente romana de Pérgamo e foi erguido num dos pontos mais altos da Acrópole. Era ricamente decorado e cercado por colunas coríntias, com uma parede de 23m de altura e frente aberta. O terraço de 68 x 58m foi construído sobre um conjunto de arcos e, mesmo depois de vários terremotos, é uma das estruturas mais visíveis do complexo.

O financiador do projeto foi um tal de A. Iulius Quadratus, um ilustre cidadão local, amigo de Trajano e procônsul da Ásia entre 109 e 110 d.C.. Mas quem concluiu o santuário foi Adriano, no ano 129, adicionando a colunata que o cercava.

Uma fragmento da estátua de Trajano usando sua armadura foi recolocada no santuário. Quando a gente assiste filmes como o Gladiador, ou 300, pensa: Tá, e como é que eles sabem que era assim que os imperadores e os guerreiros se vestiam? Simples! As esculturas preservaram isso! E em detalhes finíssimos.

Teatro

O Teatro de Pérgamo é uma das obras mais importantes do período helenístico. Ele foi construído no século III, praticamente na beira do penhasco, ao lado das ruínas do Templo de Atena. Com capacidade para cerca de 10.000 pessoas, tinha 78 fileiras de assentos divididos em três seções horizontais e era o teatro mais inclinado do mundo antigo. Imagina a vista!

Pode-se andar por algumas áreas delimitadas das ruínas, mas, por segurança, nem todas estão acessíveis.

Altar de Zeus

Curiosamente o altar mais importante de todo o complexo de Pérgamo não está mais lá. A descoberta dos relevos do Altar de Zeus dentro da muralha da Acrópole em 1865 levou às primeiras escavações. E assim como nós só conseguimos ver os mármores do Parthenon de Atenas no British Museum de Londres, a famosa fachada, em todo o seu esplendor, só pode ser vista no Museu Pérgamo em Berlim. Ele leva esse nome justamente porque seus principais artefatos são os que foram levados dali pelo engenheiro alemão Carl Humann.

Em 8 anos de escavação Humann e sua equipe encontraram inúmeras peças, mas a maior descoberta foi o altar gigante construído pelo rei Eumenes II no início do século II a.C.

Uma obra-prima da arte e da arquitetura helenística, conhecido por seus frisos magnificamente decorados, o altar era dedicado a Zeus Soter (Salvador) e Atena Nike (Deusa da Vitória). Embora os arqueólogos ainda discutam isso, acredita-se que ele era usado para sacrifícios religiosos.

O fato é que Humann estava determinado a levá-lo para a Alemanha e para isso parte da gigantesca estrutura foi quebrada e embarcada para Berlim, onde foi remontada.

Santuário de Atena e Biblioteca

Pérgamo é conhecida como o lugar onde o pergaminho foi criado. Feito de pele de ovelha ou cabra, ele foi uma inovação que ajudou a disseminar o conhecimento pelo mundo. Acredita-se que a Biblioteca, que ficava dentro da Acrópole, também tenha sido fundada pelo rei Eumenes II. Ele ainda teria sido o responsável pelo avanço da produção de pergaminho, reduzindo a dependência do papiro egípcio, que vinha de Alexandria.

Hoje, não sabemos exatamente o que havia na biblioteca porque não há um índice ou catálogo. Relatos históricos mencionam uma grande sala de leitura com muitas prateleiras e um espaço entre as paredes para circulação de ar. Os manuscritos eram enrolados e colocados ali. O objetivo era reunir todo o saber da época, preservando textos de diversas culturas. 

O propileu do Santuário de Atena, anexo à Biblioteca, é outra estrutura que foi levada para a Alemanha e hoje está no Museu Pérgamo em Berlim.

Altin Kepce Bergama

Descendo da Acrópole até Bérgama, o Sr Metin nos levou para almoçar no Altin Kepce um restaurante muito tradicional de kofte (o nosso “kafta” de carne). Lá pudemos papar também um delicioso feijãozinho branco, arroz e grão de bico. O lugar era bem gostoso, cheio de moradores. Comemos muito bem! Com bebidas e até uma sobremesa, gastamos só 1.095 liras para os três. Bem barato se compararmos com Istambul.

Santuário de Esculápio

Depois de almoçar, fomos ao santuário de Esculápio, o deus grego da medicina e da cura. Ele fica na parte baixa da cidade e a entrada custou 911,56 liras turcas para os dois (100 reais).

Assim como o templo de Esculápio que visitamos em Butrint, na Albânia, o local era uma espécie de hospital. Ali os sacerdotes e médicos realizavam rituais e purificações, interpretavam os sonhos e prescreviam remédios. Ele atraía peregrinos de todo o reino, que faziam votos e traziam oferendas. O templo teve início no século IV a.C. e era muito procurado pelos romanos em busca de cura. 

O complexo fica fora da cidade e na antiguidade ele era conectado a Pérgamo por uma Via Tecta (rua sagrada) de cerca de 1km, parcialmente coberta, repleta de lojas de ambos lados. No final da Via Tecta havia um portão de entrada e um médico sacerdote examinava os pacientes, decidiindo se eles podiam entrar ou não. Pacientes prestes a morrer não eram aceitos, pois o santuário era considerado um local de cura, não de morte. Como os partos eram muito perigosos naquela época, mulheres grávidas também eram proibidas de entrar.

No início, o local tinha apenas uma pequena capela com piscina, fontes, alguns altares e três templos, um dos quais continha imagem de Esculápio, conhecido por seu bastão com uma serpente enrolada (símbolo da medicina moderna). Gravuras com essa simbologia ainda podem ser vistas nas ruínas.

O médico mais importante dali foi o romano Cláudio Galeno, que viveu entre 129 e 199 d.C.. Considerado o mais famoso depois de Hipócrates, Galeno nasceu em Pérgamo, estudou em Izmir e em Alexandria, e desenvolveu remédios que foram usados até o século 19. Atualmente, além das escavações arqueológicas, acadêmicos da Universidade de Ege estão estudando plantas medicinais locais mencionadas nas fórmulas dele. Achamos isso muito legal!

No verão do ano 124 o imperador Adriano visitou Pérgamo e lhe concedeu o título de metropolis (cidade mãe), o que impulsionou a reconstrução do Santuário de Esculápio. A obra durou até 138 e adicionou novos edifícios, uma biblioteca, um propileu, um grande pátio, um tempo circular dedicado a Zeus, e, por volta de 140, um complexo para tratamentos. A Via Tecta também foi revitalizada com colunatas em ambos lados. De acordo com a inscrição, a dedicatória do propileu foi feita pelo senador Aulus Claudius Charax. Além disso, um teatro para 3.500 mil pessoas foi construído atrás do pórtico.

A criação de uma nova biblioteca transformou o santuário de Esculápio num centro de aprendizado similar ao de Adriano em Atenas. Ela era toda decorada e foi paga por uma mulher chamada Flavia Melitine, e também dedicada a ela. A biblioteca estava ligada ao culto do imperador e havia um nicho na parede do fundo com uma estátua do “deus” Adriano. Na base lê-se a inscrição “Teos Adrianus”. Ela foi encontrada ali, nos escombros, e hoje está no Museu Arqueológico de Bérgama.

Em fevereiro de 2024 o governo turco lançou um programa de 32 milhões de dólares para a revitalização de Pérgamo.

Como vimos, todas as características de uma cidade helenística estão representadas ali: a religiosa, a pública e cívica, a heroica e imperial e a intelectual e científica. Talvez por isso Pérgamo continue atraindo não apenas arqueólogos, mas muitos visitantes curiosos e apaixonados por história, ruínas e lendas como nós.

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Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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