Nossa segunda parada na Turquia foi Izmir (Esmirna, em português), uma cidade na costa da Anatólia, banhada pelo Mar Egeu. Conhecida como Smyrna na antiguidade, ela é bem mais velha que Istambul. Foi fundada pelos gregos, ocupada pelos romanos e reconstruída por Alexandre, o Grande, da Macedônia, antes de se tornar parte do Império Otomano no século XV.














As lendas

O assentamento original de Izmir já ocupava uma área de cerca de 90 km2 quando, na época de Alexandre, uma cidade nova e maior foi fundada na encosta do Monte Pagus. Reza a lenda que durante uma de suas expedições de caça no monte, o imperador, exausto, adormeceu debaixo de uma árvore e teve um sonho em que duas nêmesis (deusas da vingança e justiça) o instruíram a construir a cidade ali.


Considerada a cidade natal do poeta Homero, que viveu no século VIII a.C., Izmir atingiu proporções metropolitanas durante o Império Romano e chegou a competir com Pérgamo e Éfeso pelo título de “Primeira Cidade da Ásia”.
Como chegar

Fomos de Istambul para lá com a Pegasus, uma aerolinha barateza turca. Saímos às 8:10 da manhã e 9:20 já estávamos desembarcando. A viagem foi tranquila. Chegamos com sono porque acordamos 4:15 da manhã para estar no aeroporto Sabiha Gokcen a tempo. (Como já tínhamos presenciado, o trânsito de Istambul é imprevisível.)
Pegamos um Uber direto para o hotel, mas, como chegamos muito cedo (o check-in era só a partir das 14:00), deixamos as malas (e a preguiça) e fomos dar nosso primeiro rolê.
Onde ficar
Muita gente usa Izmir como base por ela ficar no meio do caminho de vários lugares turísticos, como as praias em Bodrum ou as ruínas de Hierápolis e o famoso “Castelo de Algodão” de Pamukkale.

Izmir é grande. É a terceira maior cidade do país e está dividida em duas: a baixa e a alta. Nós nos hospedamos na cidade baixa, em Konak, o bairro das docas e armazéns beira mar e também o melhor para turistar. Assim conseguimos fazer tudo a pé.
A cidade tem basicamente quatro grandes atrações: o Mercado, a Praça Konak, o Konak Píer e, na parte alta, as ruínas da antiga Ágora grega. Como já íamos visitar ruínas fabulosas em Pérgamo no dia seguinte, resolvemos deixar a Ágora de lado e conhecer as outras três.
Oglakcioglu Park Hotel
Ficamos no Oglakcioglu Park (1367 Sokak, nº 9 Basmane), que reservamos pelo Booking numa promoção legal. O hotel era muito bom, bem tradicional, com uma decoração clássica e um toque turco. E finalmente pudemos tomar um café da manhã continental. Nada de kafta com cebola logo cedo… Oh glória!












Quando ir
Ao contrário do Brasil, o verão na Turquia é nos meses de junho, julho e agosto, e o inverno em dezembro, janeiro e fevereiro. Já a primavera é entre março, abril e maio e o outono, em setembro, outubro e novembro.
Dica: se for no verão é preciso levar roupas leves, mas elas não devem ser muito curtas, justas ou decotadas. Embora não haja repressão, você pode ser impedido de entrar em alguns lugares como as mesquitas, edifícios públicos e palácios.
Konak Meydani e Saat Kulesi
No meio da Konak Meydani, a praça mais importante da cidade e à beira mar, fica o símbolo de Izmir, a Saat Kulesi (Torre do Relógio). Construída em estilo otomano, a pequena torre inaugurada em 1901 parece um bibelô de porcelana de tão linda. Na verdade, ela é toda de mármore! 25 metros de mármore! Na base tem quatro fontes d´água e também quatro arcos esculpidos em arabescos. No nosso hotel havia uma linda em miniatura dela no salão principal.



Uma curiosidade é que o maior passatempo do povo na praça é alimentar os pombos. Tem até ambulantes vendendo pacotinhos com comida pras pessoas jogarem para eles e depois tirarem fotos.
Yalı Cami
Esta pequena mesquita octogonal em estilo neoclássico foi construída em 1748 e é revestida de azulejos kütahya (a famosa porcelana turca). Durante a Primeira Guerra Mundial ela foi bastante danificada, mas em seguida passou por uma restauração. Como havia pessoas rezando lá dentro, não fotografamos, mas a Yalı Cami é realmente uma pequena joia no centro de Izmir!



Kemeraltı Bazaar e Kizlaragasi Han
O Kemeraltı Bazaar fica junto ao Kizlaragasi Han, um antigo caravanserai (hospedaria de caravanas de comerciantes) construído em 1744. Como já tínhamos visto em Sarajevo, os caravanserais recebiam mercadores de todo império, que ali pernoitavam e negociavam. Assim, o local já era um bazar desde a época medieval e ao longo dos séculos foi expandido pelas ruas de Kemeraltı, o distrito comercial da cidade.





Ali há lojinhas que vendem de tudo: temperos, doces, frutas secas, utensílios de cozinha, roupas esportivas, brinquedos, sapatos para toda a família, artesanato local, joias de ouro e prata, bijouterias e souvenirs. Também tem cafés pra sentar, bebericar um chá ou caffezinho e curtir a atmosfera. É um ótimo lugar para experimentar a cultura turca autêntica, pois diferente do Grand Bazar e do Mercado de Especiarias de Istambul, o Kemeraltı Bazaar não é frequentado só por turistas.









E dá pra comprar alguma coisa? Dá sim! Bem mais barato que em Istambul. Como não era nosso objetivo, comprei apenas um lenço de dança do ventre para dar de presente, mas fizemos um bom passeio e olhamos tudo. É fácil se perder, e isso faz parte da diversão!

Restaurante Niyazibey
A Turquia é famosa pelos kebabs, mas nem só de lanches e petiscos vivem os turcos. Quem disse que lá não tem feijão com arroz?
Já era tarde e estávamos com muita fome. Paramos no Niyazibey, na avenida Fevzi Paşa, um buffet tradicional turco. No cardápio o biber dolmasi, o pimentão recheado com carne bem temperada, o pilav (arroz) e fasulye (feijão branco), além de batata e saladas. Barateza e bem gostoso. Por 450 liras (para os dois) almoçamos muito bem.





Supermercados Sok
Fim do dia, demos uma passada no supermercado, também na Avenida Fevsi Paşa, para comprar um lanchinho para levar em nossa excursão a Pérgamo no dia seguinte. A rede chama-se Sok e já a tínhamos visto em Istambul. Salgadinhos, água mineral, suco de cereja e morangos (lindos e gordos!)







Um dia em Pérgamo
Contamos como foi esse passeio fantástico no post O Mítico Reino de Pérgamo.



Restaurante Emniyet
De volta a Izmir e cansados do rolê por Pérgamo, jantamos no Emniyet, que ficava na rua de trás do nosso hotel. Comemos espetinhos de frango acompanhados de um molho delicioso e refrescante feito de iogurte, pepino, alho e hortelã (o tzatsíki que já tínhamos comido na Grécia) e pão pita. Também provamos a pasta de feijão. Para sobremesa, frutas: melancia e melão. Gastamos apenas 910 liras, já com o raki, que o Sr. Edevaldo Miguel aproveitou muito!










Konak Píer
No último dia saímos cedo e fomos conhecer a região portuária. Ela é gigante e passear pela orla é muito gostoso. São vários piers de onde saem ferryboats para o outro lado da cidade e também para a Grécia.


De frente pra praça Konak fica o Konak Píer, um antigo armazém do porto transformado em Shopping, com cinema, lojas e muitos restaurantes de frente pro Mar Egeu… lugarzinho delicioso!


Restaurante Narjill
Almoçamos no Narjill. O ambiente, a decoração e o layout criam uma ótima atmosfera. É um local popular tanto entre os moradores quanto turistas, pois a equipe fala inglês. Comemos uma massa e camarões com legumes e para sobremesa, um gostoso bolo de morango no pote, bem geladinho. Não é muito barato, mas vale a experiência. O lugar é de frente para a baía e a vista do mar Egeu é incrível.











Kordon
A baía de Izmir é longa. Ao redor, espalhando-se por ambos os lados, a cidade vive de frente para o mar e os moradores aproveitam para caminhar, conversar ou sentar e apreciar o pôr do sol. O Kordon – o nome completo é Kordonboyu – é um calçadão de 42 km que circunda a baía. Nele há jardins, praças e monumentos. Encontramos também várias pessoas pescando por ali.





Os turcos sempre foram grandes navegadores e comandantes militares. Um deles foi Çaka Bey, governador de Izmir no século XI, cuja estátua está no Kordon. Ele foi o responsável por construir a primeira frota naval turca.


Mimar Sinan, considerado o gênio da arquitetura turca, também tem seu busto no Kordon. Dentre outras, ele foi o responsável pela construção do gigantesco complexo da Mesquita Süleymaniye em Istambul e também treinou discípulos importantes, como o construtor da linda Mesquita Azul.


Museu Zübeyde Hanim
O Zübeyde Hanım é um museu flutuante instalado num navio de 50 metros de comprimento ancorado no píer. Ele homenageia a mãe do herói da independência turca, Mustafa Kemal Atatürk. A guerra ocorreu na década de 20 e logo após o país passou a ter a configuração atual. Atatürk foi quem estabeleceu a república como forma de governo.


Os turcos tem um profundo respeito por ele e o homenageiam em todas as cidades com monumentos e ruas com seu nome. Sua imagem está inclusive na lira turca. Nas livrarias as vitrines exibem livros com sua história e as mulheres atribuem a Atatürk sua liberdade como cidadãs com direito ao voto e à emancipação. Por isso sua mãe, Zübeyde Hanım, é também muito respeitada.










Dois dos princípios que Atatürk considerava fundamentais para o crescimento de uma nação eram a independência econômica e o desenvolvimento. Assim, em 1971, para celebrar os 50 anos da independência de Izmir do domínio grego, foram inauguradas as obras conhecidas como 9 de setembro. Elas representam esses ideais e estão expostas no exterior do hotel Marriott, na orla, já no distrito de Alsancak.


O Porto
O Porto de Izmir, também conhecido como Porto de Alsancak, é o terminal de ferryboats com conexão para vários destinos na Turquia e também na Grécia, como a ilha de Lesbos. Ele fica a 20 minutos do centro da cidade. Pode-se pegar o tram (bonde) e também ônibus (33 ou 35) para ir até lá, mas eles podem levar até uma hora. Assim, fomos a pé mesmo, pelo Kordon, devagar, apreciando a paisagem.




“Peca igualmente quem apressa o hóspede que não quer partir e quem o detém quando este já está partindo. O hóspede deve ser bem tratado se fica, e não deve ser impedido de partir se assim o deseja.” (Homero)
Terminada nossa estadia, tendo sido bem tratados e prontos para seguir viagem, deixamos Izmir rumo à Selçuk, para a partir de lá explorar as ruínas da cidade bíblica de Éfeso.
Para ver antes de ir

Expresso do Destino (Yarina Tek Bilet, 2020)
Uma viagem de trem de Ankara para Izmir revela uma inesperada conexão entre Leyla e Ali, um casal de desconhecidos. Nas 14 horas da jornada eles se conhecem, se atraem, discutem, se separam e reencontram. Algumas coisas da tradição turca são até curiosas, como o fato de casais não casados não poderem viajar sozinhos na mesma cabine. A linda orla de Izmir aparece nas cenas finais.

Alexandre (2004)
O filme conta a história de Alexandre, que se tornou rei aos 20 anos e herdou do pai, Filipe II da Macedônia, um poderoso exército. Seu império se estendeu pela Grécia, Ásia Menor, Mesopotâmia, Índia e Egito. Nesses territórios, ele fundou diversas cidades. Na infância aprendeu a lutar, ler, tocar lira, cavalgar e caçar. Foi numa de suas expedições de caça no Monte Pagus, em Izmir, que Alexandre decidiu reconstruí-la.

Amor na Ilha (Ada Masali, 2021)
Haziran é uma garota dedicada à sua carreira em Marketing e ao estilo de vida acelerado e moderno de Istambul. Quando sua empresa a envia para uma ilha no distrito de Izmir, um erro muda sua vida para sempre. Poyraz tem uma pequena fábrica de azeite de oliva. Ele é um cara simples que gosta mais da natureza do que de gente. E como os opostos se atraem, faíscas voam quando eles se encontram. Locações lindas.
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