Não precisa nem dizer que amamos a Bósnia, essa terra de beleza intrigante e clima de encontro entre ocidente e oriente. Tanto que, três anos depois, voltamos para matar as saudades e dessa vez começamos visitando Mostar. A cidade é Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO e fica em Herzegovina, no sul do país. (Já Sarajevo, a capital, fica no norte, na região bósnia).


A Viagem
A viagem até lá foi uma aventura à parte. De Kotor (Montenegro) fomos de taxi até Bileća, um trajeto de 1h30. Passamos a imigração e logo chegamos na “rodoviária” (um estacionamento no meio do nada). Como o senhorzinho da bilheteria não falava inglês (querer o quê num vilarejo da fronteira da Bósnia?), a Vazi (nossa motorista) entrou e comprou as passagens pra nós. A gente só a via tentando explicar pro tiozinho (que ria) o que raios dois brasileiros estavam fazendo em Bileća no meio da semana, as 8:30 da manhã! Felizmente o ônibus que tínhamos visto no site getbybus existia mesmo! Era as 10:45 – com horário marcado na tabela na porta e tudo!


Curiosidade: na Bósnia (e também em Montenegro) se você viaja de ônibus com mala ou mochila grande é preciso pagar pela bagagem em dinheiro, para o motorista, mesmo já tendo comprado a passagem no guichê. São 2 BAM por mala (pouco mais de 5 reais). Portanto a dica é sempre ter algum trocado.


Hotel Emen
O Hotel Emen fica na rua Onešćukova, bem no miolo da cidade velha. O prédio principal estava cheio, então ficamos no novo, do outro lado da rua, que ainda não estava 100% reformado. O quarto era amplo e bem agradável, mas ficava ao lado das escadas, então tinha um pouco de barulho, o que não foi um grande problema porque tinha poucos hóspedes. Havia também um pequeno jardim de inverno de onde tínhamos uma belíssima vista das montanhas. Pagamos R$608,71 por duas noites.




Nosso primeiro almoço, logo ao chegar, foi justamente no restaurante do hotel. Já passava das 14:00 e estávamos com muita fome. Espetinhos de frango, batatas, um arrozinho temperado e uma salada de tomate, pepino e queijo. Pra beber, um ice-tea de cereja (amo cereja!).





Rio Neretva
A maior parte das cidades bósnias é bem pequena e cercada de montanhas ou desfiladeiros de rios. Adoramos cidades cortadas por rios… elas tem muito charme e principalmente, vida! É o caso de Mostar, que é linda, mas quente… muuuito quente! Entretanto, ela conta com o lindo Neretva pra aplacar o calor e dar de beber a toda a gente… uma dádiva.


As Pontes
Cerca de 22 pontes foram construídas em Mostar pelo império otomano durante a idade média e 12 delas ainda estavam em pé quando a guerra dos Balcãs começou, em 1992.





Stari Most, a mais famosa, é o cartão postal da cidade. Ela foi destruída pelo exército servo-croata em 1993, durante a guerra, e totalmente reconstruída em seu estilo otomano original com doações do Banco Mundial e dos governos da Itália, Holanda, Turquia e Croácia. A grande ironia é que foi o próprio exército croata, o HVO, que bombardeou a ponte.

Dali jovens locais pulam no rio Neretva pra ganhar dinheiro e pra alegria dos turistas. Eles tem até um clube de mergulho oficial e um concurso anual! No geral, cada turista oferece um euro e quando o mergulhador considera que já juntou euros o suficiente, pula. A grande diversão é ficar por ali, esperando os saltos.




A Kriva Ćuprija, a ponte “torta” sobre o rio Radobolja é mencionada pela primeira vez em documentos em 1558 e, depois da guerra, foi reconstruída em seu estilo original. É a ponte mais antiga de Mostar. Ela faz parte do complexo arquitetônico da Stari Grad e é um dos monumentos nacionais da Bósnia e patrimônio histórico pela UNESCO.



O Bazaar
O famoso bazar de Mostar começa antes da Stari Most, cruza a ponte e vai embora com suas lojinhas que existem ali desde a idade média! Durante a guerra dos balcãs foi bastante destruído, mas tudo foi refeito e hoje o que vemos é muito similar ao que sempre esteve lá. Tem muita coisa legal: roupas, bijuterias, artigos de decoração e lembrancinhas. Sou doida pelas luminárias, mas chegariam só os cacos no Brasil…










Café sim, mas não da manhã!
Aí o café da manhã no hotel era 6 euros por pessoa. Achamos caro e resolvemos comer na rua. Acontece que o povo aqui toma o café da manhã bósnio, ou seja, logo cedo eles comem: čevapi (linguiça de carne de carneiro com pão pita e cebola) um cafezinho turco (café preto forte como tinta), tomate, pepino e iogurte. Em tudo quanto é birosca que dizia “café da manhã” era a mesma coisa! Por fim, encontramos o Mozzarella que tinha café com leite (oh Glória!) e uma panqueca com nutella… Ele fica na rua Soldina, # 9.



As Ruazinhas
“Eu amo de um amor que jamais saberei expressar essas pequenas ruas com suas casas de porta e janela…” E como no poema de Mário Quintana, não tem como não amar a arquitetura antiga, simples e desordenada de Mostar. Ao longo dos séculos moldada por sobre as rochas, encrustando ali suas casas. Passamos horas perambulando e admirando cada cantinho.



Hotel Neretva
Mais de 100 mil pessoas morreram na Guerra da Bósnia e cerca de 2 milhões ficaram desalojadas. Os sinais do conflito ainda estão presentes em Mostar. Há vários edifícios com buracos de bala, e o Hotel Neretva, é um exemplo. Ele foi completamente destruído por morteiros.

É preciso não apagar a história e evitar que ela seja rescrita. Por isso manter as ruínas é tão importante. Muita gente acha feio e preferia que elas não estivessem ali. Mas a ideia é justamente essa! A guerra é feia e suas cicatrizes são feias… e não vão embora! Nunca!




Museu da Guerra e Vítimas do Genocídio
O Museu da Guerra e Vítimas do Genocídio mantém viva a memória dos mais de 100 mil mortos na Guerra da Bósnia. Enquanto o Museu da Guerra de Sarajevo (que visitamos em 2019) foca nos 4 anos de cerco à cidade, o de Mostar trata do horror do extermínio em massa nos pequenos povoados, como o de Prijedor, e dos campos de concentração espalhados pelo país pelo exército de Slobodan Milošević. Há vídeos das execuções e torturas, pois os assassinos filmavam suas ações. Há também dezenas de cartas, documentos e relatos. Ele fica na rua Maršala Tita, 130 e é mantido por parentes das vítimas. Vale muito visitar.





Restoran Divan
O Divan tem localização privilegiada, bem ao lado do rio Radobolja. A vista é genial e vale muito a pena. Fomos para o jantar e, calor danado, pedimos uma grande e deliciosa salada caprese e o pileći fileti (um filé de frango ao molho de champignons). Pra acompanhar, uma garrafa do vinho da casa. Delicioso!








O lugar também tem vários pratos típicos como begova çorba (sopa de frango e quiabo), ćevapi (rolinhos de carne), punjena pljeskavica (hambuguer de carne de porco, recheado com queijo), ramstek (contrafilé), punjena pohovana pileca (peito de frango recheado com queijo e presunto), teleci medalioni (medalhão de vitela) e gulaš (goulash). Para entrada ou sobremesa você ainda pode pedir hurma (tâmaras).
Behar
Outro lugar bem gostoso para comer é o Behar 2, na rua Jusovina. Mais barato que o Divan, ele tem comida tradicional, mas também aperitivos e pizzas. Comemos um prato delicioso de champignons com kajmak (creme de queijo) e batata frita e um sortido de čevapi, pileći e salada. Pra sobremesa, o que mais amamos: baklava! (doce de massa folhada finíssima com pasta de amêndoas, nozes, pistache e mel!). A vista para o rio dá um toque especial.










Koski Mehmet Pasha
A Mesquita Pasha é um dos monumentos nacionais da Bósnia. Ela é de 1617 e fica na Mala Tepa, 16, às margens do rio Neretva, rodeada de lojas e pelo Bazar. Não há muita informação histórica sobre o edifício, pois ele foi renovado vária vezes ao logo dos anos até ser praticamente reconstruído em 2001 com o apoio da comunidade islâmica da Turquia. É de lá que se tem a melhor vista da Ponte Velha – tiramos inúmeras fotos dali. Pode-se subir à torre, mas paga-se separado. A entrada é pela rua do bazar.








Bosnaseum
O Bosnaseum tem fotos antigas de Mostar, réplicas de ambientes, objetos, móveis e trajes típicos. Há cenários mostrando o cotidiano de famílias católicas croatas, sérvios ortodoxos e muçulmanos bósnios. Há também registros da guerra. Tem ainda um bom banheiro e entrada custa em torno de 5 euros por pessoa. Gostamos de visitar, até mesmo para incentivar a iniciativa. O museu fica na rua Mala Tepa.






Mostar à noite
Nossa última noite em Mostar, depois de jantar saímos para um passeio pelo Bazaar, cruzamos mais uma vez Stari Most admirando a beleza dessa cidadezina que já tinha virado outra de nossas favoritas.




Próxima parada: a Jerusalém da Europa!
Mostar tem duas rodoviárias e para ir para Sarajevo pega-se o ônibus na estação Leste. A viagem levou 3 horas e foi tranquila, beeem tranquila, pois o motorista vai parando em tudo quanto é ponto. Via um sujeito na estrada, parava, via uma cabra, parava… Mas o ônibus é confortável e a passagem custa 26 BAM por pessoa – cerca de 67 reais.


“O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”
Confira:
Sarajevo – a Jerusalem da Europa
Sarajevo e a Guerra Civil Iugoslava