Kotor: bem-vindo a Montenegro

Montenegro já estava nos nossos planos há tempos, mas quando fomos à Bósnia e à Croácia o roteiro ficou bem apertado e não tivemos tempo suficiente. Assim, aproveitamos o itinerário maluco pela Albânia para dar um pulinho e conhecer Budva e Kotor.

A cidade é a porta de entrada do turismo em Montenegro e vem ganhando popularidade entre os mochileiros no verão europeu. Mais uma cidade murada e beeem velha (168 antes de Cristo) que entrou pra nossa lista.

Durante séculos as pessoas se encontraram e se misturaram aqui e ela tem hoje cerca de 20 mil pessoas, mas recebe turistas do mundo todo em grandes cruzeiros e também visitantes que vem de ônibus, como nós. Chegamos às 11:00 da manhã, vindos de Budva com a Globtour. A viagem é rapidinha, apenas 45 minutos, e nos custou apenas 8 euros (para os dois!)

Desenhos antigos esculpidos nas rochas da Baía de Boka Kotorska mostram antigos assentamentos no local, que sempre foi estrategicamente atrativo. Patrimônio Mundial da UNESCO, a parte histórica, Stari Grad, tem o formato de um triângulo e é por ali que os visitantes passam o tempo. Rodeada por montanhas, uma muralha medieval e a baía, a paisagem é impressionante. As ruas são bem estreitas e formam um pequeno labirinto.

O velho porto de Kotor fica numa das partes mais recuadas do Mar Adriático e é cercado por fortificações construídas no período veneziano. Alguns chamam de fiorde, mas o local é na verdade um cânion fluvial submerso.

A região era povoada pelos ilírios, originários de Montenegro, mas foi conquistada pelos romanos. Com o nome de Acruvium, Kotor é mencionada pela 1ª vez em documentos de 168 antes de Cristo. Depois veio o Império Bizantino, que governou a área por sete séculos (476-1185).

Entretanto, para resistir aos ataques dos eslavos no século VII, a comunidade de Kotor foi obrigada a se fortificar, perdendo parte de seu território. Por isso voltou-se para o mar e organizou sua da vida com base no comércio marítimo.

A partir do século XIV, a cidade despertou o interesse dos venezianos, que se estabeleceram aqui e a chamaram de Cattaro. A República de Veneza permaneceu na região por quase 4 séculos (1420-1797). Esse também foi um período de terremotos catastróficos, como o de 1667, além de epidemias de peste, guerras e cercos. Mas a arquitetura veneziana está por toda parte e alguns de seus belos pallazos ainda resistem intactos.

Bastião de Gurdić

Logo ao chegar, saindo da parada do ônibus, andamos alguns metros e atravessamos o Portão Sul, o Bastião de Gurdić (do século 13). Um das três entradas da Stari Grad. Logo de cara já ficamos de boca aberta, quase não acreditando estarmos num lugar tão medieval e tão preservado. É impossível não se encantar com as casas de pedra e suas janelinhas verdes. Cenário de filme!  Fomos puxando nossas malinhas pelas ruelas e becos estreitíssimos até encontrar o nosso hotel.

Curiosidade: não é só o cenário que é coisa de filme! Graças às fortificações, Kotor conseguiu resistir à invasão dos turcos otomanos, que conquistaram todos os assentamentos vizinhos. Em 1539, essas muralhas defenderam a cidade do famoso pirata turco Barbaros Hayreddin Paşa, conhecido em português como Barba-Ruiva ou Barba-Roxa (em italiano, Barbarossa).

Wine House Old Town

Ficamos no Apartments Wine House Old Town por três noites (saiu 99 euros). Escolhemos pela localização – exatamente no miolo da Stari Grad (o endereço é justamente Stari Grad, 488). O local é um casarão medieval com grossas paredes de pedra e é contíguo a uma antiga vinícola, hoje um restaurante. Enfim, tudo o que a gente gosta! Nosso host, o Antonio Pavlicevic, falava inglês muito bem e foi muito simpático. Adoramos nossa escolha.

Muita gente vem de carro a partir de Dubrovnik e acaba tendo que ficar fora da cidade murada. (Na Stari Grad não passam carros! As ruas são tão estreitas que tem congestionamento de pedestre!) As opções na parte de fora são certamente mais baratas, mas o prazer de se hospedar dentro de uma cidade medieval, pra quem ama história como nós, é indescritível e sempre damos um jeito.

Portão do Mar e Torre do Relógio

A principal das três entradas da Stari Grad é também conhecido como Portão do Mar. Ele é de 1555 e é por onde se chega à Praça das Armas, (Trg od Oružja) a principal da cidade. Lá ficam restaurantes, sorveterias, ATMs e muitas lojas. Além de souvenirs, é possível comprar pistache, mel e queijos.

Na praça também está a Torre do Relógio, uma construção de 1602, com três andares e uma curiosidade: tem dois relógios! É levemente inclinada devido a abalos sísmicos. Entrando pelo Portão do Mar a gente já dá de cara com ela. Em frente à torre há também um pelourinho medieval para onde traziam prisioneiros e se liam sentenças e vereditos.

Praça da Farinha e seus Palazzos

O estilo veneziano está por toda parte e e alguns pallazos ainda resistem. Seguimos para a Praça da Farinha, onde vimos o Palata Pima, o palácio da família Pima, do século XVII. Outro bem “novinho” é o Palácio Buća, que pertenceu a essa família do século 13 ao 18 e hoje é um restaurante. (Não sei se a minha casa ainda estará de pé daqui a 100 anos, imagina 700!)

Muitos dos palácios da Baía de Kotor foram projetados por arquitetos profissionais, embora tenham sido construídos pelos próprios proprietários. Eles se inspiraram nos palácios italianos e usaram materiais dali mesmo, principalmente calcário das pedreiras próximas. Como essa pedra não é facilmente moldada, todos os elementos que exigiam uma modelagem mais refinada, como portais e janelas, balaustradas de escadas, terraços e varandas, foram feitos usando pedra da Ilha de Korčula, na Croácia (que também visitamos há alguns anos).

O piso térreo era geralmente usado para fins comerciais, como depósito ou celeiro. Os convidados eram recebidos e os eventos celebrados no 1º andar, enquanto os quartos e os cômodos privados da família ficavam no 2º. Os espaços eram organizados seguindo o modelo veneziano, com salão central e quatro cômodos laterais.

As Igrejas

Igreja de São Lucas, uma das estruturas mais antigas de Kotor, é de 1195. Ela fica na praça de mesmo nome. O estilo é uma mistura de romano e bizantino, no modelo das igrejas da Sérvia medieval. Inicialmente era católica, mas virou ortodoxa em meados do século XVII.

De frente para a praça fica a Igreja de São Nicolau (construída no local onde costumava ser o mosteiro dominicano de São Nicolau, de 1540). Sofreu várias reformas devido aos vários terremotos (o último em 1979). O interior é decorado com enormes painéis com pinturas dos santos. O altar principal também é impressionante.

A Catedral de São Trifão, a maior das duas igrejas católicas da cidade, é considerada um cartão postal de Kotor. O 1º templo foi construído aqui em 809 (Isso mesmo, oitocentos e nove!). Essa é de 1166 e teve várias renovações, também por causa dos terremotos. (É bem bonita, mas gostamos mesmo das singelas e pequenas capelinhas…) 

A Igreja de Santa Clara é outra pequena pérola, com seu lindo altar barroco.

O Lapidário da cidade tem lápides romanas de vários períodos, capitéis e pedras comemorativas. Ele foi instalado na antiga Igreja de São Miguel, que foi construída no século IX. Dentro estão os restos preservados de pinturas de afrescos. É bem pequenininha, de nave única, mas muito legal. A entrada é franca. Vale a visita!

No Lapidário vimos uma escultura da cabeça do imperador romano Domiciano, do século I d.C., feita de mármore branco. É uma das poucas esculturas representando esse imperador no mundo. Além dela, há um busto no Louvre em Paris, outro no Museu de Éfeso, na Turquia, e uma estátua no Museu do Vaticano, em Roma.

Domiciano (Titus Flavius Caesar Domitian Augustus) nasceu em Roma em 24 de outubro de 51. Era o segundo filho do imperador Vespasiano, o fundador da dinastia flaviana. Ele assumiu o trono após a morte de seu irmão Tito, em 18 de setembro de 81, quando a Guarda Pretoriana o proclamou imperador. Exatamente quinze anos depois, foi morto em uma conspiração, por funcionários do tribunal. Foi sob suas ordens que São João Apóstolo foi mandado ao exílio, após pregar em Éfeso.

E pra terminar, o menor templo de Kotor, a igreja ortodoxa de São Pedro Cetinje, imprensada num cantinho escondido. Muito singela. Adoramos.

Restaurante Bokun

Kotor é cara… um pouco menos que Budva, mas ainda assim comer na Stari Grad é bem salgadinho. A culinária que predomina é a italiana, mas há também comidas típicas dos bálcãns como o Ćevapii, que provamos na Bósnia . Os restaurantes costumam denominar-se “konoba” (taverna) como na Croácia, mas o fato de serem pequenos e familiares são significa que sejam baratos. Encaramos um risotinho no Bokun, que ficava próximo ao nosso hotel. Logo em frente havia outro, que parecia simpático também, o Klub Invalida. Estávamos morrendo de fome. A comida era bem gostosa (e até que não custou um rim!).

Sobremesa nem Pensar!

Pra refrescar o calor e fugir dos preços abusivos das sobremesas nas “konobas” a dica é o bom e velho sorvete de casquinha. Gostoso e barato – 1 euro a bola. Os de pistache são deliciosos – com pedacinhos de pistache de verdade!

Old Bazaar

O antigo bazar existe há centenas de anos mas foi transferido para o local atual no século XVIII. Ele fica entre as igrejas de Santa Clara e de São Nicolas. Vale uma passadinha rápida pra comprar souvenirs e bugigangas.

Os Gatos é que mandam!

Kotor tem tantos gatos que a cidade já adotou o bichinho como símbolo e tem até um museu dedicado a eles, além de souvenirs de todos os tipos! Ter gatos pela cidade é uma tradição medieval, pois evitava propagação dos ratos e protegia os moradores da peste bubônica.

Palazzo Grubonja

Bem ao lado da entrada que dá acesso à escadaria para Fortaleza de São João fica o Palazzo Grubonja, uma antiga farmácia do século 14.

Portão de São João

O Portão de São João dá acesso à encosta e ao forte de mesmo nome, o caminho para subir ao Monte Lovcen (de 1749 metros de altura). É claro que admiramos a porta, tiramos muitas fotos dela e do morro e NÃO subimos! 

A muralha da Fortaleza São João (Sveti Ivan) é uma mistura de terraços, portões e igrejas. A construção começou no século IX e somente no século XV o arco foi concluído. Ela tem 4.5 km.

Para subir a montanha é necessário esforço físico e boa vontade para encarar a trilha. Quem se arriscar deve ir com um tênis apropriado, levar água e se preparar para uma subida de aproximadamente 1300 degraus, pois são 1.200 metros. Diferente das muralhas de Dubrovnik, não se contorna a cidade, mas tem-se uma bela vista lá de cima (se não estiver nublado).

Pizzeria Pronto

Assim como em Budva, a pizza é o grande salva-vidas pra quem não quer se endividar pra não passar fome! E, como na Itália, há pequenas pizzarias de forno a lenha. A Pronto tem só uma salinha e serviço take out, que é rapidíssimo. As fatias são enormes. O preço é bem justo em relação ao que se encontra na cidade velha (2 euros a fatia). A massa é fininha, crocante e a cobertura farta. Compramos a nossa e saímos comendo!

Clube Maximus

À noite Kotor também tem agito. Além dos muitos bares e restaurantes, a cidade tem clubes e danceterias como o Maximus, que fica num terraço na Stari Grad, na Trg od Oruzja, 232. O lugar é bem badalado e costuma receber atrações nacionais e internacionais. A localização é espetacular e a fachada convida a uma foto. Seu Edevaldo Miguel curtiu!

E a saga dos turistas pobres continua! Saindo de Kotor queríamos ir pra Mostar na Bósnia. Vimos que tinha ônibus direto saindo 7:40 da manhã… beleza se hoje fosse amanhã! Depois de descobrir que só ia ter ônibus no dia seguinte mesmo, partimos para o plano B: pegar um táxi até a fronteira e na cidade mais próxima um ônibus até Mostar. Good plan! 

Pedimos pro António marcar um táxi pra nós e saímos da ponte Tabaćina às 7 da manhã (por segurança) com destino a Bileća. Quem nos levou foi a Vazi, uma motorista bem legal e que falava um inglês excelente.

Fomos conversando e 1h30 depois passamos a imigração e logo em seguida chegamos na “rodoviária” – um estacionamento no meio do nada… mas isso já é outra história…

No fim dá sempre tudo certo! Se não der é porque ainda não acabou!

Veja também:

Budva, Montenegro

Korčula – a ilha de Marco Polo

Dubrovnik – Porto Real

As Muralhas de Dubrovnik

Stradun, o coração de Dubrovnik

Comer em Dubrovnik

O verdadeiro Porto Real

Stari Grad Dubrovnik

Dubrovnik vista do alto

Ston – Cidade de Pedra

Potomje e Vinícola Matuško

Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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