“Viajar é fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas; só por isso, muitas pessoas precisam muito viajar. Não se pode ter uma visão ampla, abrangente e generosa dos homens e das coisas, vegetando num cantinho do mundo a vida inteira.” (Mark Twain)
E deixando de lado o preconceito resolvemos ir para um dos países menos visitados da Europa: a Albânia. Queríamos ver com nossos próprios olhos e aprender como era o último país a deixar o Comunismo.












As eleições de 1992 puseram um fim aos 47 anos do regime e o país hoje vive um ambiente de abertura e reconstrução de sua identidade. Aliás, uma das curiosidades, e que aprendemos logo ao chegar, é que a Albânia não se chama Albânia em albanês, mas Shqipëri.
A Viagem
De Budapest fomos para mundialmente desconhecida Tirana com a Wizz Air, com escala em Bari, na Itália (não há voos diretos). O voo é de 1h30 e chegamos ao meio dia, mas o voo para Tirana era somente às seis da tarde. Bari-Palese, aliás, é um dos aeroportos mais caros para comer que já estivemos, perdendo só para o de Orly, na França. 50 reais num panini!
Itinerário

A Albânia não faz parte do Espaço Schengen, mas brasileiros podem ficar até 90 dias sem visto. O país é grande e queríamos conhecer o máximo e de lá ainda ir para a Macedônia, Montenegro, Kosovo e voltar para a Bósnia, rever Sarajevo e conhecer Mostar.
Como itinerários malucos são nossa especialidade, fizemos: Tirana, Berat, Sarandë (com bate e volta em Corfu), Ksamil, Butrint e Shkodër (com parada em Elbasan).
Tirana
A capital da Albânia é uma mistura de prédios sombrios de cimento, minaretes otomanos e arquitetura italiana dos anos 30, com edifícios novos e coloridos decorados por artistas locais. Já os templos religiosos também são uma mistura de igrejas e mesquitas, e isso não só representa a herança do país, mas a característica multicultural de hoje. A vida noturna é agitada e a cidade é famosa por sua cultura de tomar café seja dia, ou noite.




Chegamos as 19:20 e pegamos um táxi (que já havíamos reservado pelo Booking) para nosso hostel. A Albânia não tem um sistema de transporte muito desenvolvido, não tem metrô e serviços de aplicativo também não havia. Por isso, esquecemos a ideia de tentar economizar e agendamos o transfer.

Blloku
A Tirana moderna é cheia de hotéis e vem se tornando uma cidade energética e cosmopolita. Se você quiser explorar opções de hospedagem, recomendamos que fique nessa região, que é a mais bonita e central da cidade, o que também facilita muito a locomoção. Durante o regime comunista, Blloku era uma área reservada à elite do Partido. Inclusive, é ali que fica a antiga residência de Enver Hoxha. Entretanto, hoje o Blloku é um bairro da moda com muitos restaurantes, bares, cafés, lojas e livrarias. Outro ponto legal é a segurança. Descobrimos depois que o país inteiro é seguro, mas em Blloku é super tranquilo andar a pé à noite. Fizemos isso numa boa.





Aliás, um fato curioso sobre a segurança é que os albaneses seguem o chamado Código de Besa, que quer dizer algo como “oferecer proteção/manter a promessa” e isso significa que para eles segurança é uma questão de honra. O Besa prega a solidariedade e a compaixão, e segundo ele “a honra de um albanês não pode ser vendida ou comprada num bazar”.
A língua
Falante de inglês e espanhol (e até um pouco de francês), uma das coisas que sempre faço é aprender pelo algumas palavras na língua local, afinal é uma questão de respeito. Mas na Albânia não deu mesmo! A língua é considerada a 4ª mais difícil do mundo (atrás do húngaro, búlgaro e sérvio).


Pra ter uma ideia tem palavras que já começam com dois “R” ! Então o máximo que conseguimos foi aprender a dizer foi obrigado: “faleminderit“. E, devido aos anos de isolamento político-econômico, quase não se fala inglês, mas em Tirana, e especialmente em Blokku, a gente se vira bem. Já no litoral, se souber um pouquinho de italiano também dá pra se virar, pois eles entendem bastante.
Vanilla Sky
Ficamos no Vanilla Sky, na Rruga Pjeter Bogdani, em Blloku. Ele fica num edifício bacana e a decoração é moderna e caprichada. A cozinha compartilhada é bem equipada e nosso quarto era muito bom, embora um pouquinho barulhento. O atendimento foi ótimo. O recepcionista falava um inglês legal e batemos um bom papo. Tirana é uma capital com avenidas arborizadas e noite animada. Com fome, deixamos as malas e fomos logo procurar comida, afinal já eram quase 9 da noite.



Pasta Mia
A albanesa é uma mistura da culinária mediterrânea com pratos tradicionais dos balcãs e varia dependendo da região do país, que pode ser montanhosa, central ou litorânea. Há também uma grande influência italiana. Há pouco mais de uma quadra do hostel encontramos o Pasta Mia. Já era um pouco tarde para jantar numa quarta-feira e o lugar estava quase vazio, mas fomos bem atendidos e comemos muito bem. O menu é em albanês, mas tem tradução para o inglês.



Free Walking Tour
No dia seguinte, logo cedo, fomos para a Praça Sheshi Skёnderberg para fazer o Free Walking Tour. O encontro é às 10:00 nas escadarias da Ópera e percorre-se a própria praça, com o Palácio da Cultura e o Museu de História Nacional, a famosa Torre do Relógio e a Mesquita Et’hem Bey. Passa-se também pelo Bunk’Art 2 (um pequeno Museu Comunista) e pelas ruinas do Kalaja Toptani, o Castelo do Imperador Bizantino Justiniano.

Dizem que Tirana é uma mistura de Europa ocidental com a velha Rússia, com influências do Oriente Médio – e essa nos pareceu uma boa definição.
Praça Skanderbeg
A cidade foi fundada em 1614, por um paxá, pois durante séculos a Albânia foi dominada pelo Império Otomano. A Skanderbeg é a principal praça e é enorme. No meio há uma fonte d’água e a estátua do herói que dá nome à praça. Skanderbeg lutou pela independência do país, conquistada em 1912. Pouco depois, Tirana tornou-se a capital. Nesse período, um plano de urbanização da cidade foi feito por arquitetos austríacos e italianos, com algumas das construções que vemos hoje.


No centro havia uma enorme estátua do presidente Enver Hoxha que foi derrubada ao fim do regime. O Museu da História Nacional é um prédio branco gigante com um mosaico nacionalista na fachada. Também na praça ficam o edifício do Palácio da Cultura, que abriga a Ópera e a Biblioteca Nacional e letreiro “ I love Tirana”.
Kulla e Sahatit
Da praça caminhamos alguns metros até a Kulla e Sahatit (a Torre do Relógio), um dos símbolos da cidade e poupada das demolições do Regime por sua importância artística e cultural. A torre tem 35 metros e foi construída em 1820. É possível subir ao topo para ver a cidade e à noite ela fica toda iluminada.

Mesquita Et’hem Bey
A Mesquita Et’hem Bey é uma das construções mais antigas da cidade (1789) e o interessante é a decoração por fora e no pórtico de entrada, com afrescos que retratam árvores, cachoeiras e pontes. Durante o Regime a mesquita serviu a outros propósitos e reabriu como local religioso somente em 1991.

Kalaja Toptani
A poucos metros dali, seguindo a rua peatonal Murat Toptani ficam as ruínas da muralha do Kalaja Toptani, um castelo construído em 520 pelo Imperador Justiniano, considerado o último grande imperador romano. Justiniano era turco, nascido em Constantinopla (atual Istambul) e tornou-se defensor do cristianismo como religião única do império.


Catedral da Ressureição de Cristo
Essa igreja católica ortodoxa fica pertinho do centro, na Rruga e Kavajes, e é uma construção nova. Foi erguida entre 2001 e 2012 para substituir a antiga, de 1967, que ficava na praça onde hoje é o Hotel Tirana. Ela é circular e muito bonita por dentro com um domo com um mosaico representando o Cristo Pantocrato. Estava em reformas quando fomos.



Catedral de São Paulo
A igreja católica romana é um edifício moderno e não chama muito a atenção. Dentro há um grande painel em homenagem à Madre Teresa, que aliás é venerada em todo o país, por ser de origem albanesa. Ela nasceu em 1910, em Üsküp, no então Império Otomano, hoje Skopje, capital da Macedônia, e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1979 por seu trabalho ajudando os pobres em Calcutá, na Índia. Demos uma passadinha para conhecer.



Em 1993, o Papa João Paulo II visitou a Albânia. Foi a primeira visita de um Papa na história do país. Além das autoridades governamentais, ele também se encontrou com Madre Teresa.
Bunk´Art 2
No final dos anos 1960, Enver Hoxha tinha muito medo de ataques e bombardeios e mandou construir vários bunkers por toda a Albânia. Eles jamais foram utilizados e hoje estão abandonados. Um projeto recente resolveu transformá-los em pequemos museus e o que fica no centro conta a história do Ministérios das Relações Interiores, de 1912 a 1991, os segredos da polícia política, Sigurimi, e histórias das vítimas do regime.



Pazari I Riri
O Mercado (Pazari I Riri) de Tirana é o lugar para se aproveitar a comida tradicional albanesa, que aliás é muito boa! A dica do local foi passada pelo nosso guia no Free Walking Tour e valeu a pena. No mercado pode-se provar o ferges (ricota com molho de tomate, pimentão e alho, para comer com pão), o byrek (o salgado folhado e recheado com carne, espinafre ou queijo, que a gente conheceu na Bósnia), o tavë kosi (frango assado ao molho de iogurte), ou o speca te mbushur me oriz (pimentão verde recheado com carne e arroz), além do qofte (almondega de carne de carneiro) e do sarme (charuto de repolho recheado, com molho de tomate).











Comemos muuuito bem por apenas 1700 lekes por pessoa (cerca de 35 reais), com bebida!

Outra coisa legal no mercado é poder aproveitar as frutas como sobremesa. Assim como o conto da Lígia Fagundes Telles “As Cerejas” são um clássico! Os moranguinhos também são grandes e deliciosos. O bom de viajar na primavera é isso.


Museu da Espionagem
Em 1944, após a Albânia conseguir se libertar da dominação nazista, o líder comunista Enver Hoxha subiu ao poder e iniciou uma ditadura que durou até 1991 (o líder morreu em 1985). O governo de Hoxha foi isolacionista e desde o início rompeu ligações com a vizinha Iugoslávia, aliando-se a URSS. Nos anos 60, cortaram relações com a Rússia também e aliaram-se à China até a morte de Mao Tsé-Tung, quando o país se isolou completamente. Nos anos 90 a ditadura chegou ao fim. Nesse museu ficava a sede da polícia secreta albanesa, cuja missão era espionar os “inimigos” do regime. Ele também é chamado de Casa das Folhas (House of Leaves) e foi aberto em 2017. Vale a visita, especialmente pra quem curte tecnologia, pois há vários equipamentos antigos de espionagem.



Myslym Shyri

A Rua das Compras do centro, a cerca de 1 km de Blloku, é a Myslym Shyri. Foi lá que aproveitamos para comprar uma malinha de 8 kilos (super barata), para substituir a minha, que tinha quebrado na viagem. A rua tem muitas lojas de todos os tipos e em geral as coisas não tem preço à mostra, é preciso perguntar e barganhar. A senhora da loja não falava inglês e nós tampouco albanês, mas a boa vontade dos locais faz toda a diferença e não tivemos problemas. Também tem várias lanchonetes para comer um byrek ou tomar um café.
Café sim, da Manhã não
Por falar em café, uma coisa curiosa é que embora os albaneses tomem café o tempo todo, não têm o hábito de tomar café da manhã na rua. Isso significa que, logo cedo, ou você come um folhado salgado com recheio de queijo e espinafre e uma salada de tomates e pepino, ou fica com fome.



Assim como vimos na Bósnia, o desjejum deles costuma ser quase um almoço. Achar uma padaria ou confeitaria para comer só um pedaço de bolo também não é fácil. Assim, quando for reservar a hospedagem, opte por uma que ofereça o café da manhã continental (café c/ leite, pão c/ manteiga, queijo e presunto e um suco).




Era Restorant Piceri
O Era fica na Rruga Papa Gjon II, bem no meio de Blloku. Em albanês “Era” significa “vento” e o lugar é bem gostoso, com muitas janelas. O cardápio tem comida tradicional além de pratos internacionais. Fomos para um lanche leve e comemos pão pita com queijo, tomate e rúcula, rolinhos do tipo primavera e uma salada mista. Tomamos dois chops grandes, pois fazia muito calor. A comida era boa e os valores razoáveis, dada a localização.



Os Preços
A Albânia é bem barata e Tirana foi, sem dúvida, uma das capitais mais baratas dos 36 países em que estivemos. Nosso gasto médio no país foi de cerca de 30 euros por pessoa, por dia, incluindo alimentação, transporte, hospedagem e entradas nos locais. Vale muito a pena.
Para ter uma ideia, quando fomos o litro da gasolina lá era 167 leke, ou seja, uns 8 reais. Detalhe: o país não produz petróleo, compram tudo da Europa central. Então como é que pode um dos países mais pobres da Europa vender a 8 reais e nós, que produzimos e refinamos, chegarmos a pagar R$8,60 no governo anterior? Pois é…

Transporte
O centro da cidade não é muito grande para se explorar a pé. Entretanto, há linhas de ônibus que circulam pela cidade e as passagens são baratas. Não utilizamos, mas vimos alguns. Vimos inclusive uma cena inusitada com um deles, entalado sobre um córrego. Dizem que se perdeu, entalou e lá ficou!

Os taxis são um assunto à parte na Albânia pois a maioria não tem taxímetro e cobram conforme a cara do freguês. Assim a dica é pedir para o hostel agendar pra você, combinando o valor antes. Foi o que fizemos. Outro ponto é o trânsito, que é bem doido, afinal faz pouco mais de 30 anos que os albaneses começaram a comprar carros, e segundo nosso guia, faz ainda menos tempo que descobriram que precisavam tirar carteira para dirigir!
Rodoviária, só que não
Em Tirana existem várias rodoviárias e elas não são exatamente organizadas. Para piorar, costumam ser temporárias. A internacional é a Tirana Central Bus Station (Pallati i Sportit Asllan Rusi), na Rruga Dritan Hoxha. Já a donde partem os ônibus para o sul do país, como Berat, Ksamil e demais praias, fica perto da rotatória com a águia símbolo da Albânia, bem longe do centro. É a Sheshi Shqiponja, na Rruga 29 Nentori. Os ônibus, por sua vez, nem sempre são ônibus, mas minivans, chamadas “furgons” e só partem para o destino quando estão lotadas.


Para ir de Tirana para nossa próxima cidade, Berat, nós pegamos um táxi para a estação, achamos o nosso micro-ônibus e entramos. Como chegamos as 10:30, esperamos até encher e um pouco depois das 11:00, lá fomos nós. A viagem custou apenas 500 leke por pessoa (cerca de 22 reais) e durou duas horas, durante as quais o motorista fez e recebeu pelo menos umas 14 ligações no celular! (Parei de contar…)

A diversão ficou por conta de um tiozinho que levou um rádio na viagem e ficou tocando uma música local dos anos 90, “Si banania”, bem alto até, que o motorista da van veio e deu uma bronca nele!
Enfim, Tirana não nos foi tirana, pelo contrário! Nos divertimos muito.
(Esse post era pra ter saído há meses, acabamos nos enrolando, voltamos pra Cuba e tivemos alguns perrengues de saúde na família. Mas a Albânia ficou na memória…)
Veja também:
Muito bom Adeli! Depois de ler teu relato nem preciso ir pra Tirana. Box ticked ✅ Ha!
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Vai sim! É uma aventura! 😜
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