Kosovo: o país mais jovem da Europa

Sabe aquela sensação de que o tempo demorou uma eternidade para passar? Acontece quando você viaja para um lugar novo. Faz seu cérebro rejuvenescer!

Continuando nosso mochilão pelos Bálcãs, fomos de Ohrid, na Macedônia, para Pristina, a capital do Kosovo. Pegamos o ônibus das 10:45 para Skopije e de lá outro às 15:00, por apenas 90 dinari (cerca de 75 reais) para ambos. Pouco mais de duas horas depois, com imigração incluída, chegávamos ao nosso destino: o país mais jovem Europa!

O Kosovo só virou país em 2008, quando declarou sua independência da Sérvia e sua sanguinária campanha de limpeza étnica na ex-Iuguslávia. É uma nação renascida após anos de conflito e apesar de “nova”, há registros de sua história desde o século IV antes de Cristo.

Hotel Prima

Chegamos numa sexta-feira à noitinha no Prima, na Lidhja e Prizrenit nº 24, no centro histórico. Ele fica a apenas 300m da Praça Madre Tereza e bem em frente a um mercado e banca de frutas, o que sempre é útil. O quarto era bem grande, tinha uma pequena sacada, banheiro bom e chuveiro com muita água quente. O que foi uma glória porque estávamos cansados e só queríamos um bom banho e cama. Também tinha wi-fi gratuito para os hóspedes, embora no nosso quarto o sinal fosse fraco. Pagamos R$908,32 por 3 noites.

Dia seguinte, acordamos tarde, mas a tempo de curtir um ótimo café da manhã com opções de iogurte, pães, frios e queijo, além de omelete feito na hora. Em tempo: case com alguém que olhe pra você como o Edevaldo Miguel olha pro omelete do café da manhã!

Aliás, as senhoras do café não falavam nada de inglês, mas foram muito gentis e tentaram nos fazer sentir bem-vindos, especialmente a mais velha que se certificou de que tomássemos café mais cedo no nosso último dia, pois tínhamos que correr para a estação de ônibus às 7:30. Ela também nos ajudou a chamar um táxi. Muito querida mesmo.

O que fazer em Pristina?

As memórias do passado estão por toda parte, mas com a estabilidade, quem, como nós, arrisca a jornada até lá é recompensado com moradores simpáticos e acolhedores e uma culinária deliciosa e muito barata. Comemos bem pra caramba!

Ainda sem muita estrutura turística, Pristina conserva um quê de desconhecido e embora não tão convencionalmente atraente quanto outras da Europa, ela nos surpreendeu por estar visivelmente prosperando. Monumentos, muitos cafés, livrarias e gente jovem criam uma ótima experiência.

Pristina está chegando à maioridade junto com seus moradores, que demonstram uma grande energia e alegria de viver. Longe de ser o lugar perigoso ou deprimente que as pessoas imaginam quando ouvem o nome, a capital é muito interessante e uma das poucas da Europa onde o turismo de massa não chegou.

New Born Monument

Inaugurado em 17 de fevereiro de 2008, o dia em que o Kosovo declarou sua independência, o monumento incorpora o “nascimento” do estado e a luta pelo reconhecimento, em andamento até hoje. O Brasil, por exemplo, é um dos países que ainda não o reconhecem. (Mas não faz mal, a gente conheceu e reconheceu!). O monumento fica na rua Luan Haradinaj e embora tenha passado de seus dias de glória, ainda tem importância simbólica.

O Memorial da Heroína

Pertinho dali, do outro lado da rua, fica o memorial que lembra a coragem e o sofrimento das mulheres muçulmanas durante a guerra do Kosovo. Cerca de 20 mil foram estupradas pelos soldados sérvios durante os conflitos. O monumento foi construído com 20.145 pequenas medalhas, formando o rosto da heroína kosovar. Falamos bastante sobre isso nos posts da Bósnia: Mostar, Sarajevo e a Guerra e Bósnia no Cinema.


Museu Etnográfico

Não há lugar melhor para se familiarizar com a cultura tradicional do Kosovo do que os antigos edifícios otomanos. O Museu Etnográfico de Prístina fica numa casa do século XVIII pertencente à família de Emin Gjikolli. Ela tem cozinha e sala comum para a família, com mesa e cadeiras, prateleiras para pratos e tangines, lareira, cezve (pote para areia quente para fazer café) e uma novidade para a época: pia de pedra dentro da cozinha, e com água corrente! A sala de visitas fica no 2º andar e possui sofás, aquecimento central e sacada para os homens saírem fumar. Os quartos eram separados em quarto dos homens e das mulheres e até os casais casados dormiam separados… (Mesmo assim tinham uma penca de filhos!) Também há instrumentos musicais, peças de roupa, acessórios e outros artefatos. O museu fica na rua Iliaz Agushi e funciona das 10:00 às 17:00, exceto nas segundas.

Rrobaqepes???

Aqui a maioria da população é muçulmana e fala albanês, não adotando o alfabeto cirílico. Aliás, o nome do país, em albanês, é Kosova, com “A” e a capital é “Prishtina”, com “H”. E, como já havíamos comprovado na Albânia, a língua é bem complicada. É considerada a 4ª mais difícil do mundo (atrás do húngaro, búlgaro e sérvio). Então o máximo que conseguimos foi aprender a dizer foi obrigado: “faleminderit“. Mas não se preocupe, pois muita gente fala inglês nos restaurantes, cafés, hotéis, mercadinhos e até nas farmácias!

Restaurante Liburnia

Começamos bem em Pristina enchendo o buchinho de comida tradicional e boa pra chuchu! (Além de barata!). Quando chegamos já demos de cara com várias policiais comendo lá. Muitas verduras e legumes fresquinhos e deliciosos em pratos bem preparados, alguns servidos escaldantes em sua frigideira, por 3 a 5 euros cada. Experimentamos a bruschetta (bukëza), os cogumelos salteados (kërpudha te freskëta me djath ne furrë), o peito de frango ao molho da casa (medaljon pule kosovare), a salada Liburnia e o tagliatelle com vegetais (jufka me perime me furrë).

O Liburnia foi nossa melhor experiência no Kosovo. A decoração é rústica, a atmosfera é bem acolhedora, a equipe fala Inglês, o vinho local é muito bom (provamos o tinto e o branco), mas o maior destaque é mesmo a comida. Adoramos! Tanto que para nos despedir voltamos para jantar no dia seguinte. E ainda ganhamos duas baklavas de cortesia! O restaurante fica na rua Meto Bajraktari, no Centro.

A única coisa difícil de se acostumar é que, assim como na Albânia, na Bósnia e na Turquia, nos restaurantes, mesmo nos em que falam inglês, quando eu pergunto os garçons respondem para o Ede (por ser homem….). Para os muçulmanos é uma questão de respeito. Mas que é estranho, é!

Mesquita Imperial (Xhamia e Madhe)

A Mesquita Imperial, ou Mesquita Sultão Mehmet Fatih, em homenagem ao homem que ordenou sua construção em meados do século XV, é a mais importante de Pristina. Ainda está de pé hoje, apesar dos danos causados durante a Segunda Guerra Mundial, e possui uma bela arte e decoração interna. Ela fica na rua Iir Konushevci.

O Kosovo teve que reerguer várias mesquitas depois da guerra e de sua independência da Sérvia, que, assim como na Bósnia, promoveu um genocídio étnico e religioso no país. As mesquitas de 1389 e de 1461 foram restauradas e ainda permanecem com suas funções hoje em dia.

Katedralja Shen Nënë Tereza

Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, a Madre Tereza de Calcutá nasceu no Kosovo (antigamente pertencente à Albânia) em 1910. Considerada santa, fundou a congregação Missionárias da Caridade, que acolhe os mais pobres dentre os pobres, os verdadeiramente miseráveis. Ficou conhecida como a “Santa das Sarjetas” e é reverenciada tanto aqui quanto na Albânia e na Macedônia. Ela costumava dizer que “Se não se vive para os demais, a vida não tem sentido”. Em Pristina a rua principal da cidade leva seu nome, assim como a Catedral Metropolitana e pode-se ver vários monumentos dedicados a ela, inclusive um painel gigante no Museu de História.

Boulevard Nënë Tereza

Avenida principal do centro, ela é peatonal e muito gostosa para passear. Na primavera e no verão as crianças de divertem nas fontes d´água e é onde ficam os hotéis bacanas, lojas de marca e teatros.


Ibrahim Rugova

O primeiro presidente do Kosovo como nação autônoma foi eleito por uma junta de governo e, em 1999, sequestrado pelo genocida sérvio Slobodan Milošević. Foi novamente eleito em 2002, governando até sua morte, de câncer, em 2008. É muito amado no país e sua estátua está na frente da Catedral Madre Tereza. Ele também estampa a fachada de um grande edifício no Sheshi Zahir Pajaziti.

Bill Clinton Boulevard

Quando o Kosovo declarou a independência em 17 de fevereiro, foi reconhecido como nação pelos EUA no dia seguinte. Por isso tem até estátua do Bill Clinton por aqui. Ela foi inaugurada por ele próprio há mais de uma década, e desde então continua sendo uma das excêntricas atrações da cidade, dado o seu cenário: em frente a um edifício cinza comunista. Uma réplica kitsch da Estátua da Liberdade também enfeitou o telhado do agora extinto Victory Hotel, até recentemente. Bem pertinho da estátua, tem uma loja de roupas chamada Hillary! Endereço: Bill Clinton Boulevard, esquina da Robert Doll Street. Essa rua fica próxima da rua George Bush!

Incentivo à Leitura!

Pristina tem muitas livrarias… um sinal de que o país está em pleno desenvolvimento. Tem livraria tradicional, tem banquinhas de rua e tem café-livraria. Quer saber se um país está crescendo ou afundando? Veja se as livrarias estão abrindo ou fechando! Há até um monumento de incentivo à leitura que traz um estudo científico de 2020 sobre sua influência no desenvolvimento infantil.

“As crianças que leem mais livros dentro de um ano e aquelas que estão registradas na biblioteca têm mais bem-estar psicológico e são mais emocionalmente inteligentes.”

A cena cultural kosovar está aos poucos florescendo, com música, eventos e exposições de arte. Os passeios culturais são frequentemente interrompidos com idas aos cafés. Aliás, o café é um assunto sério no Kosovo, dizem até que tem o melhor macchiato do mundo – e a preços baixos!

Soma Book Station

Talvez o lugar mais legal da cidade, o Soma é um dos points da cena hipster de Pristina. Ele fica bem movimentado na hora do almoço (venha se tiver tempo de sobra), e o jardim ao ar livre se enche de vida nas noites de verão. A comida é uma mistura de especialidades internacionais: tacos, hambúrgueres, massas e risotos. Comemos um hamburger com chutney (5 euros) e o ullinje te ngrohte (champignons salteados com molho de pimenta e azeite para comer com pão pita). Com um chá gelado e uma coca-cola, almoçamos muito bem por 14 euros. O Soma fica na rua Dr. Shpëtim Robaj.

Muzeu Kombëtar i Kosovës

O Museu Nacional reúne a memória do povo kosovar e embora o país exista como nação há poucos anos, aqui, no meio dos Bálcãs, viviam os dardanios, que mais tarde foram anexados ao império romano. Então há registros de sua história desde o século IV antes de Cristo. O museu é novo e o acervo não é grande, pois muitas das peças foram saqueadas e levadas para a Sérvia ao longo dos anos. Nós, que amamos história, nos solidarizamos e o visitamos com a mesma reverência e respeito que faríamos se fosse ele um dos mais prestigiados da Europa.

Dentre as peças, um busto de deusa dardaniana do século II, um relevo esculpido mostrando uma procissão fúnebre (séculos V-IV a.C.), lacrimaria e outras peças romanas em vidro do século I, um sarcófago de chumbo da dinastia do Imperador Severus (século II-III) e moedas de bronze do reinado de Constantino (século IV), além de figuras antropomórficas da pré-história.

Santea

A Pristina de hoje é bastante secular quando se trata de vida noturna, cultivando uma cada vez mais pontos de encontro modernos, microcervejarias e bares, que surgem de um dia para o outro.

Depois do trabalho e nos fins de semana, os moradores se aglomeram no bairro de Santea, escondidos (em plena vista) atrás de um portão que leva da Avenida Bill Clinton até lá. Ele é repleto de cafés e bares, a música enche o ar e a vibração é jovial. Em Santea também pudemos ver um pouco da arte de rua kosovar.

Restaurante Serai

Passeando por Santea chegamos ao Serai, um lugar simpático e acolhedor. Ele oferece uma variedade pequena, mas a comida é muito gostosa. Comemos uma massa e um risoto e tomamos um maravilhoso vinho nacional. E para finalizar ainda ganhamos um limocello. O restaurante fica na rua Qamil Hoxha.

Compras

Pristina tem marcas famosas, como Benneton, em pleno Boulevard Madre Tereza. Mas muitas das ruas em volta do centro tem comércios que parecem de bairro.

Algumas são especializadas, como a rua das auto elétricas, das autopeças, das oficinas mecânicas… Já no miolo mesmo ficam as ruas das lojas de festas, bijuterias e acessórios para celular, uma em cada esquina.

Aliás, quer ver uma coisa que dá dinheiro aqui no Kosovo? Casamento! O que tem de loja de noiva… O legal é que muitos dos vestidos não são vestidos e sim aquelas calças com coletes tipo Jeannie é um Gênio.

O artesanato é uma das melhores lembrancinhas para trazer de Pristina. Eles variam de joias produzidas por ourives locais a esculturas em madeira, artigos de couro, bordados, roupas tradicionais, tapetes e até instrumentos musicais. O antigo Bazar, na Rruga Iir Konushect, tem barracas vendendo tudo, desde queijo feta a peças de carro e recordações do Kosovo. Vale a pena dar uma olhada, mesmo que você não esteja planejando comprar.

Transporte

Fizemos tudo a pé, sem problemas. Usamos taxi apenas da estação para o hotel e vice-versa. Uma curiosidade é que os kosovares amam buzina, buzinam para pedestres cruzarem rápido mesmo quando está verde para atravessar a rua. Ou seja, o pedestre tem preferência nas faixas, só que não! Fica ainda mais complicado porque muitas das ruas não tem calçadas, e quando tem, viram estacionamento.

Tem várias empresas de táxi em Pristina. A maioria usa taxímetro e tem uma tarifa inicial padrão. Se por acaso não tiver, é só negociar o preço antes da viagem. Tem ainda uma rede de ônibus que percorre toda a cidade, mas não usamos. As tarifas são baixas, e as passagens a gente compra direto com o motorista.

Há também conexões de ônibus intermunicipais dentro do país e internacionais, entre Pristina e Belgrado, Novi Pazar (Sérvia), Skopje (Macedônia), Tirana (Albânia), Podgorica, Ulcinj (Monetengro), além de um trem diário para Skopje.

Importante: se ao ir embora do Kosovo você for para a Sérvia, sua entrada no Kosovo deverá ser obrigatoriamente também pela Sérvia. Por questões políticas, sua entrada na Sérvia pode ser recusada se vier do Kosovo tendo entrado pela Macedônia, Albânia ou Montenegro.

Por fim, fazemos nossas as palavras da cantora Dua Lipa (que é albanesa):

“A juventude do Kosovo merece o direito a ter seu visto liberado, liberdade para viajar e sonhar alto.”

Deixamos também duas dicas de filmes interessantes para se entender um pouco da história recente do país e sua transição no pós-guerra.

A Colméia (2021)

Como muitas mulheres no Kosovo, Fahrije espera notícias sobre seu marido, que ainda está desaparecido sete anos após a guerra. Não se espera que as viúvas trabalhem, mas ela precisa sustentar sua família. Morando no interior, Fahrije decide unir forças com outras viúvas para começar negócio de produção de ajvar (tradicional molho de pimentão vermelho) e vender em Pristina. Ela então enfrenta uma comunidade que a condena até mesmo por ousar dirigir. O filme foi inspirado na verdadeira história de Fahrije Hoti.

Escuridão (Darkling / Mrak, 2022)

Numa região rural do Kosovo, ocupado pela OTAN, Milica, uma garota de 11 anos, mora com a mãe, Vukica, e o avô, Milutin, numa casa cercada por uma densa mata e sem energia elétrica. Todas as noites a família monta uma barricada na porta, aterrorizada. Será esse horror um eco da guerra recente ou apenas sua imaginação, como os soldados afirmam? Não há evidências palpáveis de que algo ruim esteja acontecendo, mas a cada noite, seu medo fica mais forte…. Enquanto Milica escreve uma carta para as Nações Unidas sobre o pai, desaparecido, o avô fica cada vez mais paranóico com as ameaças invisíveis que se escondem no escuro. O filme é baseado em uma história real.

Veja também:

Tirana, Albânia

Berat e suas mil janelas

A Riviera Albanesa

Ksamil – Paraíso Azul

Ruínas de Butrint

Shkodë, Albânia

Mostar, Herzegovina

Sarajevo, a Jerusalém da Europa

Sarajevo e a Guerra Civil Iugoslava

Ohrid, Macedônia

Budva, Montenegro

Kotor, Montenegro

Belgrado, Sérvia


Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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