Sabe aquela sensação de que o tempo demorou uma eternidade para passar? Acontece quando você viaja para um lugar novo, de preferência bem exótico. E isso é bom, faz seu cérebro rejuvenescer. Então… depois de Tirana, a aventura pela Albânia realmente começou ao irmos para Berat.











Berat, antiga cidade grega de Antipatrea, foi fundada por Cassandro em 314 antes de Cristo. Tomada pelos romanos e mais tarde pelos otomanos, tornou-se um ícone da arquitetura desse povo. Casas baixas morro acima, com muitas janelas. Ruas de pedra tão estreitas que parecem corredores e várias mesquitas. Um museu a céu aberto, é Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Os otomanos e os bizantinos acreditavam que casas claras e iluminadas traziam boas energias, por isso, suas construções eram repletas de janelas. As casas seguem um mesmo modelo e a principal diferença é justamente o número de janelas.

Em torno do Castelo e logo abaixo dele fica o bairro de Mangalen, a Cidade Velha. É o lado muçulmano da cidade e seu cartão postal. Sempre que vemos fotos de Berat e suas “mil janelas” elas são de Mangalem. Já do outro lado do rio Osum, fica Gorica, o lado ortodoxo. Ambos são ótimos para se hospedar.

Hotel Ansel
Numa cidade com mais de 2500 anos, resolvemos ficar num lugar moderno, o Ansel, uma casa de apenas 300 anos! Ele fica na Av. Antipatrea Lagjja, em Mangalem, quase em frente à ponte de pedestres sobre o rio Osum. Para subir aos quartos há uma escadaria. Ficamos no 303, que era muito espaçoso, bem decorado e super aconchegante, apesar de suas paredes de pedra pura. O banheiro era bom e o chuveiro ótimo, com muita água quentinha. Também tinha TV tela plana e Netflix, embora a última coisa que alguém deve querer fazer numa cidade tão incrível como Berat é ficar vendo TV.




O Ansel também é restaurante e serve pizzas e pratos típicos, tanto nas mesas ao ar livre, na calçada, quanto no salão interno. Adoramos o hotel, que é familiar, e os rapazes que nos atenderam, simpáticos e atenciosos. Reservamos pelo Booking.com e pagamos 90 euros por duas noites.









Ura e Gorices
Instalados e boca aberta com a cidade e com o quão sortudos éramos simplesmente por estar ali, saímos para explorar e procurar comida. Atravessamos a Ura e Gorices (Ponte Gorica), para chegar ao bairro de mesmo nome, do outro lado do rio Osum. É uma linda ponte otomana de 1780 e tem oito arcos. Segundo a lenda local a ponte madeira original (anterior a essa) continha uma masmorra onde uma donzela foi presa e sacrificada para apaziguar os espíritos e garantir a segurança da construção. Em 1880 ela foi destruída pelas enchentes do rio Osum e reconstruída várias vezes.





Antigoni
Logo ao atravessar a ponte, na Rruga Kristaq Tutulani fica o restaurante Antigoni. Com o nome sugere, ele é velho e o mais tradicional da cidade pois dele se tem a melhor vista das “mil janelas” de Berat, do rio Osum e do castelo grego no alto da montanha. Chegamos para almoçar no terraço e conseguimos uma ótima mesa. A comida era muito boa. Como estava calor optamos por uma salada do chef (alface, tomate, pepino, ovos cozidos, molho rose e erva doce), pimentões recheados e um byrek de queijo com 4 pedaços. Os preços são bem razoáveis e gastamos 1500 leke por pessoa, cerca de 66 reais. Tomamos ainda uma taça de vinho branco e uma cerveja korça, a marca local.











Palácio do Paxá
O paxá era o governador da província no Império Otomano. Até 1945, o sarai, ou Palácio do Paxá de Berat, estendia-se pelos lados sul e leste do bairro de Mangalem, o local mais apropriado para a construção de um grande complexo. Hoje o pouco que foi preservado dá uma ideia da grandeza do lugar, destruído ao longo dos séculos por conta das várias ocupações, além da deterioração natural. O que sobrou é uma estrutura de pedra com pilares e arcadas, parte do haremlik, a ala das mulheres. A qualidade dos entalhes e da fachada dá uma ideia da elegância do antigo palácio.




Kalaja e Beratit
No dia seguinte, logo depois do café, visitamos o Castelo, no monte Tomorr. A subida até o alto é ferrenha, então fomos de táxi (500 leke – 22 reais) e depois descemos a pé, para ir ao Museu Etnográfico e curtir a Rruga Mihal Komneno.




O Kalaja e Beratit (Castelo de Berat) é na verdade uma cidadela fortificada do século XIII onde as pessas vivem até hoje! Dentro do complexo há várias casas e restaurantes familiares como o Antipatrea e o Onufri (onde almoçamos). Há também a antiga igreja de Santa Maria, hoje Museu Onufri – um incrível museu iconográfico com peças de valor inestimável. Imagina só perguntarem seu endereço e você dizer: Castelo de Berat, sem número…


Depois de ter sido quase incendiado pelos romanos em 200 a.C., ele foi revitalizado durante o século 5 pelo Império Bizantino, e reconstruído completamente durante o século 18.


Mesquitas Vermelha e Branca
Ainda dentro do complexo do Castelo a maior parte das estruturas são da era bizantina, entretanto a Mesquita Vermelha foi construída no império otomano, por volta do séc. XV, em tijolos de barro e calcário. Hoje resta apenas o minarete.



Conhecida também como Mesquita Sultan Bayezid II, diferente da vermelha, a Mesquita Branca, construída apenas em pedra calcária, não tem mais minarete, restando apenas cerca de dois metros de sua base e um metro das paredes da fundação. Ambas viraram monumentos culturais da Albânia em 1961.
Tabja
Subindo um pouco mais chegamos à Tabja, o miradouro do Castelo. De lá de cima tem-se uma vista incrível da cidade.

Muzeu Kombëtar Ikonografik Onufri
O Museu Iconográfico de Berat (conhecido como Museu Onifri) fica na antiga igreja de Santa Maria e é dedicado ao pintor do século XIV, Onufri, famoso por seus ícones bizantinos (muitos dos quais já foram emprestados para exposições nos principais museus da Grécia, Itália e Alemanha). A entrada custa 300 leke por pessoa. Ele fica dentro do complexo do Castelo de Berat (fotos da parte interna não são permitidas).





Restaurante Onufri
Logo na entrada do Kalaja um senhor muito simpático convida para comer em seu pequeno e antiquíssimo restaurante – que também é a casa de sua família há gerações. Dentro, a mulher e a filha cozinham… Fora, a netinha, Erina, ainda bebê, brinca e tenta conversar com os turistas. A comida do Onufri é tradicional e muito gostosa (além de barata). Ele não fala inglês, mas na parede há fotos dos pratos com seus nomes em albanês e em inglês. Pedimos um byrek de espinafre (espécie de torta salgada que já havíamos comido na Bósnia), um prato de fasoli (feijões brancos com molho, outro que já conhecíamos da Grécia) e uma salada mista (alface, tomates, pepino, cebola e queijo de cabra). Com um refrigerante e um chá, deu 1250 leke. Pouco mais de 30 reais por pessoa! Comemos, descansamos e nos preparamos para descer o monte Tomorr.

A Albânia é isso. O povo é simples, educado e a comida é sempre saborosa!





Museu Etnográfico
Descendo do Castelo, mais ou menos uns 600 metros já avistamos do lado esquerdo a construção otomana transformada em Museu Etnográfico. A casa do século XVIII virou museu em 1979. Logo na entrada uma funcionária nos pergunta de onde somos e ao descobrir, diz sorridente que somos os primeiros brasileiros que ela recebe. Ela nos explica que a casa pertencia à família Lafad e com um folheto de informação em inglês já nas mãos, começamos a visita.





São dois andares, o de cima destinado à família, com cômodos separados para homens e mulheres. Isso mesmo – marido e mulher não dormiam juntos! (Como tinham tantos filhos é uma incógnita…). A primeira sala é uma espécie de bazar medieval com uma exposição de roupas típicas – muito finas e bordadas. A casa é incrivelmente moderna para os padrões da época, com aquecimento em todos os cômodos, uma grande cozinha, uma sala só para visitantes, outra grande muito iluminada para os homens e um cômodo para a família, usado tanto para comer, como para dormir. As peças ainda contém móveis e objetos originais, armários e guarda-roupas de madeira entalhada.





No andar de baixo ficam as oficinas: uma moenda, um alambique, uma forja e teares. Grandes caixas de pedra maciça eram usadas como geladeira para guardar azeite, azeitonas, cereais e até mesmo laticínios. Tudo isso dá uma ideia de como era o dia a dia dos cidadãos de Berat. A entrada custou 300 lekes por pessoa. Fotos no interior não são permitidas (as acima são públicas)



Rruga Mihal Komneno
A Rruga (rua) Mihal Komneno é a que dá acesso ao Castelo para quem vai a pé a partir da Avenida Antipatrea. Voltamos por ela. Trata-se de uma das mais importantes de Mangalem, possui hoteis e é muito gostosa para se caminhar. Komneno aliás é um sobrenome de origem grega e refere-se a um dos governantes de Berat no século XII.




Xhamia e Beqarëve
A antiga mesquita Sylejman Pasha, hoje Mesquita dos Solteiros, é de 1828 e fica na parte inferior do bairro de Mangalem. Ela foi construída para jovens solteiros que trabalhavam como aprendizes e ajudantes de comerciantes e tem dois pisos e arcadas em três lados. O minarete é baixo, mas chama a atenção em meio ao casario da Avenida Antipatrea. Tornou-se Monumento Cultural do país em 1961.

Friendly House
Outro restaurante gostoso é o Friendly House, na Rruga Zoi Tola. Subimos até o terraço e almoçamos de frente para o rio Osum. A vista é privilegiada! O lugar serve comida tradicional e, como estava super calor, comemos apenas uma salada verde com nozes e enroladinhos de massa folhada, e tomamos uma taça de vinho gelado e um chá. A curiosidade do local foi que, enquanto esperávamos pela comida, exatamente ao meio dia, a música ambiente foi desligada e ouvimos o chamado para as orações ecoar do alto do minarete da Mesquita dos Solteiros, que fica bem ao lado.





Bulevardi Republika
Berat é a 9a maior cidade da Albânia, mas tem menos de 100 mil habitantes. Hoje o vai e vem de turistas agita a cidade, mas a atmosfera provinciana permanece… O Bulevardi Republika é uma peatonal nova e cheia de cafés e restaurantes. Ao fundo, é emoldurada pelo lindo Monte Tomorr. Um lugar bem gostoso para um “xhiro” albanês (uma caminhada).


Em frente fica o Parque Lulishtja, paralelo ao rio Osum. É um local familiar, com muito verde, crianças brincando e aposentados jogando xadrez.


O Bulevardi Republika é também o “bobódromo” da cidade, pois, no fim do dia borbulha com um ritual divertido que observamos durante horas: os rapazes lotam as mesas do estabelecimentos, bebendo café e água, enquanto as meninas passeiam em grupinhos para cima e para baixo, cochichando e rindo.

Nós curtimos o movimento, tomamos um drink no Bar Te Albani e jantamos no Bar Pastiçeri Piazza, que tem música ao vivo. Também experimentamos um crépe de chocolate e um café no Shtepia e Kafes Gimi
Nota: a música tradicional da Albânia chama-se “poliforni” e pelo que percebemos, é popular somente entre os mais velhos. Os jovens gostam mesmo é de clips de cantores pop com carrões e relógios de ouro e gostosonas em roupas sexy. Esses passam initerruptamente nos telões dos bares.





De volta à Avenida Antipatrea, em nossa última noite, demos mais um giro para nos despedir de Berat tomando um sorvete da Paticeri Tori.




Viajar não é só tirar fotos dos pontos turísticos, é para conversar com as pessoas, descobrir sabores, costumes e nos deparar com o diferente. E foi em Berat que começamos a realmente sentir como a Albânia é um país único.
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