Shkodër

” A vida enriquece quem se arrisca a abrir novas portas; privilegia quem descobre seus segredos…”

Continuando nosso roteiro maluco a gente foi de Sarandë, no sul da Albânia, para a Macedônia (Ohrid) e depois para o Kosovo (Pristina) e agora queria voltar para o norte do país, para Shkodër. Vimos que tinha ônibus saindo de Pristina às 8:00 da manhã, fomos cedo pra rodoviária, compramos passagem e pegamos o busum da Atmaxha (Atmaxhatrans.com) que saiu no horário e custou 10 euros por pessoa. Era bem confortável (o melhor que pegamos nessa viagem!).

Tudo certo, alfândega super OK, bem tranquilo até o motorista anunciar que já estávamos em Shkodër e descermos (pois o ônibus seguiria viagem rumo à Montenegro). Realmente descemos em Shkodër, só que não na estação de ônibus, mas no meio da rodovia! Descobrimos, da pior maneira, que o ônibus não entrava na cidade em si, porque teria que desviar muito e esse não era seu destino final. Algumas pessoas desceram, locais, e cada um foi pra um lado. Olhamos em volta e tinha só um Parque de Diversões de um lado, um Posto de Gasolina (só com frentistas sem cara nenhuma que entenderiam a gente) e um hotel de beira de estrada (que nem o nome tinha na frente) do outro. Ligamos para o nosso hotel (bem no centro) e tentamos explicar, em inglês, onde estávamos, mas nem a gente sabia direito. Por fim fui ao hotel de beira de estrada e pedi para o recepcionista lá falar com o recepcionista do nosso – afinal albanês com albanês, teoricamente, se entendem. Felizmente se entenderam e nos mandaram um táxi! Insh’ Allah!

A cidade

Shkodër é uma das cidades mais antigas da Albânia, dominada pelos Romanos em 168 antes de Cristo. Ela é considerada o berço da cultura albanesa e é a principal cidade do norte do país, com 130.000 habitantes. Chegamos com um calor de 29 graus… tudo ensolarado, tudo colorido…

Hotel Promenade

Achamos nosso hotel (finalmente) e ele era muuuuito fofo! O Promenade fica na Rruga (rua) Gjuhadol, nº 7, bem no meio do centro velho! A decoração é toda veneziana com muitos e lindos quadros. Amamos! Marcamos pelo Booking.com e pagamos 86,40 euros por duas noites, com café da manhã.

Restaurante Sol

E do ladinho do hotel (e do mesmo dono) fica o Sol, um restaurante bem gostoso. É onde é servido o café da manhã e também onde almoçamos logo ao chegar, às 4 da tarde. O pessoal fala um inglês meio quebrado mas não se nega a servir uma pizza e uma saladinha pra turistas famintos… mesmo com a cozinha fechada! O ambiente é descontraído e eles também são sorveteria.

Aí a gente pede do marido tirar uma foto e o que ele faz? (Eu mereço!)

Kole Idromeno

A rua principal do centro é a Kole Idromeno e ela é também um dos principais pontos turísticos da cidade. O longo calçadão tem restaurantes e lojas de ambos lados e passear por ele é muito agradável, principalmente no fim do dia, quando está fresco (caso vá no fim da primavera, como nós).

Muzeu Kombëtar i Fotografisë “Marubi”

O Museu da Fotografia de Shkodër, relembra várias gerações do estúdio de fotografia da cidade, o Marubi, que funcionou desde o século XIX até os anos 70. Além das fotos da cidade e seus moradores ao longo do tempo, há também uma câmara escura, equipamentos antigos e uma réplica de estúdio em que o visitante pode se divertir tirando uma foto com cenário ao fundo. Achamos muito legal!

A Cultura do Café

Ir a cafés é um dos passatempos mais populares dos locais. A qualquer hora do dia e no começo da noite pode-se ver as pessoas bebericando seus cafés e conversando. Recomendamos a Paticeri Oraldi.

Mais uma curiosidade da Albânia, país de maioria muçulmana, embora a grande parte da população não seja religiosa: as mesas de frente para a rua nos restaurantes pertencem aos homens locais! Isso mesmo… saem em bandos e lotam as mesas, pedindo sempre café e água e fumando seus cigarros (e TODOS fumam!). Além de herança cultural, parece ser uma espécie de afirmação da masculinidade. As mulheres são a minoria nos cafés e costumam sentar do lado de dentro (nada de arrastar o sari na medina pra não queimar no mármore do inferno!).

Conclusão: os turistas que se virem pra achar um lugarzinho! Mesmo quase não consumindo e ocupando as mesas por horas, os donos dos estabelecimentos parecem não se importar… Por isso a dica é: saia cedo pra comer e achando uma mesinha legal na rua, sente logo e fique por lá!

Entretanto, embora não esteja ainda 100% preparada para receber turistas, já percebem que isso é o que traz dinheiro para a cidade, portanto atendem bem. Não com a mesma atenção e ar amistoso com que recebem os próprios locais, mas como parte de seu ofício. Brasileiros estranham um pouco. O que importa é que tentam ajudar, mesmo sem falar inglês.

Kalaja e Rozafës (Castelo Rozafa)

O Castelo fica a cerca de 130 m acima do nível do mar, numa encosta rochosa. Construído pelos Ilírios (o povo originário) , em IV a.C., foi conquistado e depois reforçado pelos invasores eslavos e bizantinos. Diz a lenda que o foi erguido por três irmãos que emparedaram a noiva do mais novo, a jovem Rozafa, na fundação do castelo como oferta aos deuses para que a construção ficasse em pé.  (Que família, heim?) Daí vem o nome.

Ele fica a mais ou menos 4 km do centro e o ideal é ir de táxi porque a subida é ferrenha. A entrada custa 3,50 euros (365 lekes) por pessoa.

A cidade intra muros era organizada em três pátios, separados por portões. Dentro da fortificação estão preservados vestígios de habitações e outras estruturas como guarnições, armazéns, cisternas e edifícios administrativos e religiosos.

Dica de Ouro: quando na Albânia, tenha paciência! (algo que tenho muito pouco!). Para ir ao Castelo pedimos pra recepcionista do hotel nos chamar um táxi, o que ela prontamente fez e nos disse que chegaria em 5 min. Esperamos do lado de fora e nada do carro. Falamos de novo com ela e descobrimos que o táxi não parava ali e sim na esquina da rua Idromeno, a de pedestres (ela bem que podia ter avisado, né?) Pegamos o taxi e perguntamos para o motorista se ele podia nos apanhar de volta em uma hora. Disse que não, que teríamos que ligar para a central e pedir um carro depois. Estávamos sem SIN card da Albânia e tentamos explicar que não tínhamos como ligar. Como não falava inglês muito bem, por fim ele ligou para a central e colocou no viva voz para eu conversar com a atendente. Eram 9:00 da manhã e ela nos garantiu que às 10:00 um táxi estaria esperando por nós ao pé do Castelo para voltar. Fizemos a visita e às 10 em ponto estávamos no local marcado. Passados 15 min, nada do táxi… resolvemos pagar 29 reais por uma ligação de roaming internacional e ligar novamente para a central para perguntar. A moça nos garantiu que ele estava a caminho. Por fim o carro chegou. As 10:30! De todas formas, valeu o perrengue, pois o Castelo é realmente incrível.

Kulla Inglizit

A Kulla Inglizit (Torre Inglesa) – foi construída pelo inglês Lord Paget, no final do século XVIII, sobre as ruínas da casa da família Domnori. Ele era protestante e queria construir algo em estilo medieval. O relógio do topo foi removido durante a ditadura de Enver e colocado na torre do castelo da cidade de Gjrokastra, onde Enver nasceu. Hoje a casa é um bar.

Mesquita Xhamia e Madhe – Ebu Bekr, Shkodër

Durante a Ditadura de Enver os cultos religiosos foram proibidos na Albânia. Don Simon Jubabi, um diocesano, ficou preso por 26 anos. Ao ser solto, em 1989, quis rezar uma missa, mas a igreja estava destruída. Então toda a população de Shkodër se reuniu para ajudar a organizar a missa e garantir a segurança, inclusive os muçulmanos (que eram, e ainda são a maioria na cidade). Um exemplo de respeito e convivência entre os povos e crenças.

Museu da Memória e Testemunho

O Museu fica no edifício de uma antiga cadeia para presos políticos. Na época do governo do ditador Enver todos considerados inimigos do estado na Albânia eram enviados para prisões, várias de trabalhos forçados e muitos condenados à morte por fuzilamento. Em Shkodra e região havia 8. Foram presos religiosos ortodoxos, católicos e muçulmanos, além de líderes de associações de classe. Eles eram inclusive obrigados a trabalhar destruindo seus próprios templos. Os julgamentos eram públicos, mas apenas pro forma porque uma vez acusado o réu jamais era inocentado. O Museu tem várias celas ainda intactas e vários painéis com fotos da época, além de um só com fotos dos prisioneiros. Um vídeo (legendado em inglês), conta toda a história. Muito interessante e necessário para mostrar que nenhum regime totalitário e opressivo pode ser bom, seja de direita ou esquerda.

Restaurante Sofra

E pra nos despedir da Albânia resolvemos sofrer um pouco no “Sofra” (aproveitar pra comer bem porque nosso próximo destino não era tão barato quanto aqui! )

Tchau rua Idromeno! Adoramos você! Esse sorvete na Gelatteria Bell´Ítalia foi só pra adiar a partida…

Tem ônibus, só que não!

Aí a gente queria ir de Shkodër para Budva, em Montenegro. Entramos no site da Old Time Travel (a empresa que faz a linha) e vimos que tinha ônibus às 10:00 da manhã por 10 euros. Dava para comprar on-line, mas resolvemos pagar, na hora, para o motorista mesmo (ainda bem!). 9:45 chegamos ao ponto do ônibus, em frente ao hotel Rozafa. 10:00, 10:15, 10:30 e nada… mais alguns mochileiros chegaram. Um senhor nos ofereceu fazer o trajeto até Budva de carro por 50 euros, achamos caro e resolvemos esperar. Ficamos conversando… 10:45 e nada… 3 dos turistas iam pra Kotor e apenas uma outra (além de nós) pra Budva. Um tiozinho lhes ofereceu o trajeto de carro por 15 euros cada, mais 1 euro por cada mala. Como ele tinha só tinha 4 lugares e era mais vantajoso ir até Kotor (mais longe), os mochileiros foram e nós ficamos… 11:00 da manhã, nada do ônibus, outro tiozinho, o Sr Veri, que já estava com um turista chinês no carro, o Yun, indo para Podgorica, nos ofereceu a viagem por 35 euros. Topamos e lá fomos nós. Ótima decisão, pois segundo o Yun, que ligou para a Old Time Travel, o ônibus não ia passar mesmo! Disseram que já tinham passado e que tinham esperado 5 min e seguido viagem… Só que não!

Numa entrevista, o tradutor canadense Robert Elsie uma vez disse:

“A Albânia me espanta, me cansa e me deixa louco. Mas este país nunca é chato. Há sempre algo para descobrir, para nos maravilhar, assustar… há certamente mil coisas que não gosto na Albânia – talvez eu tenha me tornado albanês!” E nós também!

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Ksamil – Paraíso Azul

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Publicado por Adelijasluk

Adeli é formada em Letras e pós graduada em Recursos Humanos, fala quatro línguas e adora conhecer outras culturas. Curiosa e teimosa, nas horas vagas planeja itinerários próprios para as viagens com o marido. Edevaldo é funcionário público e cursou geografia e informática. Paciente, nas horas vagas estuda maneiras sensatas de viabilizar os itinerários da esposa. Viajam por conta própria e juntos já conheceram mais de 250 cidades em 36 países.

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